quinta-feira, 9 de julho de 2009

Chegando a Itapoá de carona...















Acesse o link abaixo e assista o video - Certas coisas, Lulu Santos e depois volte ao Blog: 
http://youtu.be/nyQMmnM-8EU

Eu saí do internato e fui para Itapoá, tentando pensar numa ação mais acertiva para a minha vida; e eu também queria rever o meu Velho lobo do mar. Afinal; a falta que sinto dos meus anjos genitores é quese visceral, e existem tantas histórias; que eu não consigo visualizar o fim destes relatos. Espero verdadeiramente, que a espiritualidade me capacite para tanto...

Como de costume; eu coloquei a minha pouca tralha em uma mochila, fui para um posto a beira da rodovia, á procura de uma carona segura rumo ao sul do país. Na minha visão de adolescente; as pessoas eram aparentemente, mais confiáveis e menos cruéis. Porém; a maturidade nos torna muito mais refratários e supostamente mais incrédulos.
Sentado ao lado da lanchonete de um posto de combustíveis na BR 116; eu analisava quem poderia me conceder uma carona segura. Então; um fusca vermelho com dois homens, parou para abastecer. Me sentido seguro, os abordei e pedi uma carona; o motorista me perguntou o destino e eu fiz um breve relato da minha história. De pronto fui atendido e eles me convidaram para um lanche. Grato pela carona recusei o lanche; porém fui comunicado que só pararíamos novamente, nas proximidades da cidade de Curitiba, capital do Paraná. Eles estavam indo para a cidade de Florianópolis, capital do estado de Santa catarina; então eu resolvi aceitar também o lanche. Os dois homens aparentavam meia idade, pareciam tranquilos e extremamente despreocupados. Após comermos; entramos no carro como bons companheiros de viagem; e tudo parecia correr na mais completa normalidade. Porém; quando nos aproxímávamos de um posto da polícia rodoviária, nas proximidades da cidade de Cajati, ainda no estado de São Paulo; os dois homens meio esbaforidos, pediram para que eu escondesse uma pequena mala, que sequer eu havia notado. Era uma pasta tipo 007, que estava atrás do banco do motorista. De pronto, atendi o pedido sem maiores indagações e coloquei a pasta embaixo do banco, cobrindo-a com a minha mochila. Notei que eles transportavam algo irregular e que a pasta era bastante pesada. Após passarmos pela polícia, sem sermos parados, o silêncio foi quebrado, por um visível suspiro de alívio dos dois ocupantes do fusca. Percebi então; que existia algo muito irregular e que a minha presença, servia como disfarce para os dois homens. Embora eu tivesse percebido tudo com muita clareza; não deixei transparecer medo algum para eles. De pronto os dois fizeram questão de me tranquilizar e cairam numa gargalhada; que apenas eles entendiam o real motivo. Então; a conversa voltou a normalidade e os dois me parabenizaram pela iniciativa de esconder a pasta colocando a minha mochila por cima. Os dois foram extremamente educados durante todo o percurso, e ao chegarmos a Curitiba, paramos em um posto fora da cidade, para abastecer. Almoçamos; eles gentilmente, se prontificaram para pagar o meu almoço e eu aleguei que ficaria ali mesmo. Os dois riram da minha atitude; pois perceberam que eu estava tentando sair de cena. Então; eles me tranquilizaram e insistentemente me convenceram a entar no carro novamente. A viagem foi tranquila, e ao chegarmos no trevo da BR 101; já nas proximidades da cidade de Garuva, no estado de Santa Catarina; agradeci aos dois ocupantes do fusca e comuniquei que aquele seria o meu destino. Sem ao menos me revelarem seus nomes e o real motivo daquela viagem; eles também me agradeceram. Um deles me alertou de forma veemente, sobre os perigos das estradas, pedindo para que eu tomasse cuidado. De posse da minha inseparável mochila, atravessei a rodovia, tomei um café numa lanchonete, enquantos esperava o ônibus para Itapoá.
O caminho até o paraiso; era feito atravéz de uma estrada de barro lamacenta, com ribanceiras abruptas e bastante sinuosas. Em dados momentos, o ônibus parecia uma formiga, dependurado naquelas trilhas.
O nosso Velho lobo do mar; havia se amasiado com uma senhora a qual, eu ainda não conhecia pessoalmente. Porém as referências a mim passadas eram as melhores e eu estava ansioso para conhecê-la também...

(Foto- BR 116)

O internato...


Era final de outubro, de mil novecentos e setenta e oito. Eu cheguei a capital paulista, levado pelo meu cunhado, esposo da minha irmã mais velha. Com uma pequena mala azul marinho, poucas roupas, um par de sapatos, um par de tênis e um par de chinelo havaianas...
Nós dessembarcamos neste terminal de ônibus, na praça da Bandeira, centro de São Paulo. Quando eu olhei esta cidade pela primeira vêz, tive a certeza que este seria o lugar onde eu viveria para sempre; a minha indentificação com esta megalópole agigantada, havia sido imediata. Daqui; embarcamos em um coletivo, que nos levaria ao extremo sul da cidade de São Paulo; onde finalmente se localizava o internato. Após sermos identificados na guarita de entrada, por guardas uniformizados, nós adentramos aquela enorme propriedade, que mais parecia um paraíso na terra. Alamedas ajardinadas, árvores e gramados imensos, prédios dos dois lados e lagos com peixes e plantas aquáticas; tudo me parecia fantástico e de extremo bom gosto. O som do piano, que vinha da capela do dormitório feminino, também me chamava a atenção; pois era como uma trilha sonora de algum filme épico. O cenário era acolhedor e aliviava a minha alma, de forma inusitada, como há muito eu não me sentia. Afinal; eu estava saindo do olho de um furacão emociaonal, e agora parecia que tudo se tornaria melhor novamente.
As moças e os rapazes que circulavam apressados; nos cumprimentavam cordialmente, enquanto decíamos a alameda em direção ao dormitório masculino. Todos pareciam felizes e bastante integrados ao lugar; mas embora eu gostasse do que via, estava meio assustado, pois tudo era novo para mim; e após uma breve despedida, o meu cunhado pegou o caminho de volta para Santos. A solidariedade e a cordialidade, sempre foram as maiores qualidades do esposo da minha irmã. Obrigado pela presteza, cunhado!
Agora; eu estaria por minha conta e risco, pela primeira vêz na vida. Era uma sensação nova e preocupante, mas não me parecia tão assustadora. Eu me sentia acompanhado e confotável, como se alguma força maior me encorajasse; e então comecei a tomar as primeiras providências para me instalar. Procurei a recepção do dormitório, guardei a minha mala e de posse dos meus documentos, fui orientado a procurar a secretaria daquela imensa instituição. De volta ao dormitório, recebi a chave do quarto número três, que tinha a janela lateral, voltada para um belo jardim e os fundos para uma grande quadra de esportes. As normas e horários que eu deveria cumprir rigorosamente, também me foram fornecidas em uma folha de papel timbrado. Tudo me parecia muito organizado e eu gostava disso! O almoço começaria ser servido a partir das onze horas e quarenta e cinco minutos; o refeitório era um prédio enorme com a fachada toda envidraçada e ficava ao lado do dormitório feminino, próximo da biblioteca, que na época já era informatizada. Havia também um conservatório musical, um anfiteatro, um dormitório de quatro andares, só para os alunos que cursavam faculdade, e localizava-se ao lado do nosso. Havia também uma gráfica, casas para professores, pastores, diretores e funcionários. Havia uma lavanderia de porte industrial, quadras de esportes para cada dormitório, uma pscina semi olimpica, uma igreja imensa e muito luxuosa; edifícios de faculdades, pomares, hortas, estábulos de bovinos e ovelhas, oficina, tratores, três estacionamentos, praças, correio, agencia bancária, um mini mercado, campo para futebol e pique nique, um canil e etc. Enfim; era um mundo a parte muito bem estruturado e tremendamente organizado. A noite, cães pastores e guardas cuidavam daquela imensa propriedade; e a circulação de pessoas, era permitida só até as vinte e duas horas.
Eu percebi que estudar ali, deveria ser muito dispendioso, e que aquela bolsa de estudos havia sido um grande premio. Obrigado, novamente mano!
Além da paz que eu havia conseguido; poderia me dedicar ao que mais gosto na vida, que é estudar.
Eu dividiria o quarto com mais dois garotos, que também eram bolsistas e assim como eu; trabalhariam meio período na instituição para pagar os estudos. Um deles trabalhava na horta, outro na cozinha e eu iria trabalahar a noite, na limpeza dos escritórios. Afinal; não era tão mal assim!
Aquele lugar; transboradava informação, cultura, disciplina e muita qualidade de vida, que para mim, seria vital e tremendamente agregador no futuro.
Tratei logo de me entrosar e fazer amizades, como sempre fôra do meu feitio; mas isto não me livrou de brigas oméricas, ném de castigos por travessuras inerentes á minha idade. Por várias vezes, nós éramos proibido de sair nos finais de semana, para visitar parentes, em virtude destas peraltices e molecagens. As vezes; também éramos castigados com trabalhos extras na horta, por matarmos aula em grupo, por nadar na pscina fora dos nossos horários, praticar esportes nas quadras ou perambular pela mata que cercava todo o internato. Logo dei conta de arrumar uma namorada, que também era interna lá; os nossos encontros eram sempre dissimulados; pois era proibido sequer, entrarmos no dormitório feminino, por causas óbvias! Frequentemente nos encontrávamos no refeitório, na biblioteca, durante os cultos, nas praças internas e apenas durante o dia; pois a instituição era protestante e um pouco rígida.
Durante os quatro anos que permaneci no internato; eu tive poucas visitas da família. Na maioria das vezes, era eu quem saia para visitá-los; já que as saídas nos fins de semana, eram permitidas. Também tinhamos quinze dias de férias no final do ano; e era quando eu aproveitava para visitar o meu pai e meus irmãos em Itapoá. Estas férias me aproximaram muito de meu velho lobo do mar; pois normalmente ficávamos conversando por horas a fio. Como era bom ouvir as histórias fantásticas, que o meu herói contava com muita maestria. Ele tinha uma forma peculiar de fazer as suas narrativas, enquanto tecia as suas infindáveis redes, com o seu inseparável cigaro de corda á boca e sua caneca de café bem forte. Felizmente; eu tive a honra de saber um pouco mais daquele ser tão maravilhoso; antes do seu desencarne súbito. Ele, assim como a nossa mãe, era unânimidade na vila de pescadores; uma figura extremamente carismática e sem muita paciência para futilidades. Porém; existe dois tipos de pessoas que ele não suportava: Os hipócritas e os fofoqueiros de plantão; e também não fazia a menor cerimônia em repudiá-los. A nossa mãe; era sempre mais complacente, o meu pai invariávelmente, ria dela por ser tão tolerante. Eles tinham um censo de humor e uma presença de espírito, que poucos conheciam!
Normalmente nos períodos de férias; eu colocava uma mochila nas costas, seguia para um posto da BR 116 sentido sul; e de carona em carona, chegava a Itapoá. Como era bacana poder aprender com o meu herói; eu sinto muita falta dos meus genitores terrenos, eles são quase uma lenda para mim. Quando eu ouvia alguma alegação depreciativa, proferida por alguns dos meus irmãos mais velhos, em relação a eles; era como se estivessem me agredindo; e não foram poucas as asneira que eu ouvi. Sempre engolia calado, pois eu sabia que por ser o filho caçula; também não conhecia toda a trajetória familiar. Os poucos anos que convivi com os meus pais, foram salutares, eu não poderia adotar uma postura diferente; apenas pela verbalização dos outros. É vital que honremos os seres que foram responsáveis pela nossa existência no planeta. Pois como eu sempre digo; quem não consegue ser bom filho; provávelmente, terá dificuldade em ser um cidadão pró-ativo ou agregador socialmente! Os meus pais, foram visívelmente amados e reconhecidos, pelos mais atentos e humanizados que os cercaram. Mesmo hoje; quando visito os lugares por onde eles estiveram; tenho a certeza de que eles foram pessoas boas.
Os movimentos acusatórios e rançosos, são extremamente nocivos e não ajudam em nada. O lamento só é bom, quando serve para aliviar a alma, não é saudável e não deve servir como ferramenta de vitimismo. Os conselhos dos meus pais, são pérolas que eu guardo comigo e que muito me auxiliam.
Eu prefiro desconfiar dos que não conseguem ser gratos, dos que fazem sempre o papel da vítima, ou dos que cobram mais do que consegue pagar. Pois estes; passarão pela existência terrena, procurando culpados para justificar as suas vidas vazias, porque são viciados na conduta difamatória; que invariavelmente; faz mais mal a quem as pratica. Assim; estes acabam caindo no discrédito generalizado, que vai corroer as suas almas e fatalmente, os perturbará pela eternidade; se estes não adotarem uma conduta de auto preservação humanizada, e honestamente espiritualizada...
Voltando aos fatos novamente...
Havia quatro anos, que eu adentrara pela primeira vêz naquela instituição. O aprendizado promovido para além das salas de aula, a socialização e a missigenação; teriam papeis decisivos, não só na minha conduta de vida, como também na blindagem do meu espírito dalí por diante. Após quatro longos anos; aquele internato já não me cabia mais, e a vida fora de lá, me parecia a melhor opção. Eu sabia que compraria uma enorme briga com o meu irmão, mas era necessário criar asas novamente e o mundo acenava com essa possibilidade.
Mesmo contra a vontade do meu irmão querido; eu tomei novamente as rédias da minha vida, coloquei nas costas a minha mochila e saí do internato, sem a menor pretenção de retornar.
Mesmo porque; o horizonte sempre me fascinou, é uma forma fantástica de aprendizado; e o livre arbítrio, é um instrumento delegado pela própria divindade...
Isto é uma constatação, não uma alegação!


(Foto Praça da Bandeira centro de São Paulo -by Lee Bento)