segunda-feira, 18 de maio de 2009

A nossa matilha começa a se dispersar...



A saúde dos meus pais, dava sinais claros de fragilidade.






O nosso Guerreiro; ainda tinha sequélas deixadas por uma cirurgia, em virtude de uma úlcera no estômago e também pelas dificuldades daqueles anos difíceis no Brasil.
A nossa Heroina; se mostrava fragilizada e bastante envelhecida, por motivos correlatos à nossa história.
Por ser filho temporão, sou tio de sobrinhos mais velhos que eu; em decorrência disso, tenho uma visão diferente de alguns dos meus irmãos, sobre os meus pais.
Eu acredito que os meus irmãos e irmãs, tiveram uma vida mais atribulada que a minha; alguns tem as suas próprias razões para cultivar os seus ranços, que provavelmente; não foram resolvidos a tempo.
Eu venho tentando não me contaminar com ransos alheios; mas confesso, que este não é um exercício fácil.

O nosso irmão mais velho, já estudava em um colégio interno; outro irmão, passou a morar na cidade de Santos, com uma das nossas irmãs e sua família.
Este irmão querido, nasceu com uma luz especial; ele era o mais calmo e o mais moreno dos meninos. No futuro, ele nos impressionaria significativamente!
Porém; esta é uma história que eu devo contar mais tarde...

Nós; os três filhos restantes, ficamos morando no paraiso com os nossos pais e também contávamos com a solidariedade local.
É notável, as relações que uma vila de pescadores desenvolve e normalmente; os pescadores são muito solidários entre sí.
Eu lembro de tempestades com ventos e chuva fortes; que as vezes duravam meses, esse período era chamado de lestada e a solidariedade era tremendamente vital; em tais circunstâncias.
Dias difíceis aqueles; canoas tripuladas por amigos, irmãos ou parentes; afundavam ás nossas vistas, em virtude do mar revolto. Porém; eu não lembro de pescadores mortos no mar; ao contrário de alguns turistas incautos.
Com muita frequência; pessoas eram salvas por pescadores, que se lançavam ao mar em busca de vidas.
O motivo mais comum destes afogamentos, se dava por conta de uma boia, bola ou qualquer brinquedo infantil; que normalmente são levados pelos ventos.
Alguns turístas desavizados, não levavam em conta os riscos comuns; como buracos, correntezas e partiam mar a dentro, em busca destes brinquedos.
Por vezes; algumas tagédias se sucederam, sem que alguém pudesse intervir com sucesso. As cenas de desespero, das familias atingidas por essas tragédias, são tristes e visualmente marcantes; principalmente quando se é criança.

Certa vêz, o meu pai passou a noite velando um corpo á beira mar; o qual encontrara de madrugada, enquanto pescava com a sua inseparável Tarrafa.
Nesta ocasião; eu lembro dele chegando em casa, no meio da madrugada, comunicando ter encontrado o corpo de um homem, que havia se afogado na tarde anterior.
Sem se fazer de rogado; o meu Herói trocou a roupa molhada, tomou o seu costumeiro café; e de posse de uma rede que ele mesmo tecia, do seu inseparável fumo de carda, de um banquinho e uma lamparina; ele partiu sózinho para velar o corpo à beira mar, até o dia raiar.
Eu confesso que fiquei bastante impressionado com a atitude do meu pai; ele parecia em estado de oração silenciosa, enquanto se preparava para aquele velório solitário.
Hoje; eu percebo aquela atitude, como louvável e extremamente humanizada. Para mim, foi mais que uma lição de respeito ao próximo; foi uma atitude respeitosa para com a famila daquele homem, que havia sido levado pelo mar de forma tão trágica.
Eu percebia que para o meu pai; a existência da divindade, estava para além dos estereótipos religiosos.
Obrigado pelo belo exemplo; véio...

Nos anos sessenta não havia sequer, uma estrada no paraíso. Automóveis, ônibus e caminhões, usavam uma estrada de terra, que cortava uma serrinha lamacenta e extremamente perigosa. Depois; ainda havia mais quatro quilômetros pela praia, até nós.
O paraíso ficava realmente distante das futilidades urbanas; mas bastante sofrível no quesito inclusão social...

Eu penso ter uma visão mais romantizada dos fatos; justamente pela minha tenra idade e acredito que os caçulas, são realmente mais protegidos. Até por uma questão conjuntural, mesmo!
A história dos nossos genitores, lembra a dos salmões. Eles vencem as corredeiras, depositam e fecundam os seus ovos; depois morrem, cumprindo assim a sua missão tão nobre, no milagre da renovação da vida.
Os meus pais nunca limitaram o meu aprendizado, nem usavam histórias hipóciritas para me educar. Eu aprendi a ler, folheando gibis, comecei a ganhar livros infantis; mais tarde, pude ler a coleção do escritor Julho Werner, Seleções e por aí foi.
Embora eu tivesse dificuldade para ler em público, tinha facilidade para interpretar e assimilar textos. Esta facilidade com as ciências humanas, ajudou na minha formação acadêmica e nas escolhas que eu venho fazendo ao longo da vida.
Logo que eu pude decidir por conta própria; passei a cuidar sozinho das minhas questões econômicas e nunca deleguei esta função a ninguém!
Não gosto de acumular dívidas, não tenho pendências jurídicas e devo poucos favores.Tudo na minha vida foi cobrado, tudo no meu universo teve preço super faturado e talvez graças a isso; eu não tenha dívidas morais ou econômicas.
É vital ser grato, ter a alma limpa e o nosso espírito deve ser inviolável; pois o máximo que os nossos algozes terão, será a nossa carne; que se por acaso for de alguma valia...

As coisas ficavam mais difíceis para mim; quando o meu irmão mais velho, vinha passar as férias conosco. Ele perturbava os meus pais, alegando que eu era extremante livre no Paraíso.
Ora bolas; eu era uma criança amada pelos meus pais, de bem com a vida e estava integralizado no meu habitat. As neurozes não me pertenciam, mas invariávelmente, esta era a minha temporada de surras; eu dava graças a Deus, quando as férias dele terminavam e ele voltava para o internato...
Eu não me importava de apanhar pelas travessuras que fazia; mas odiava quando apanhava sem motivos, ou por uma pseudo educação e sem propósito, e que sempre partiam de alegações infundadas, do meu irmão mais velho. O papel do chato naquela ocasião, coube a ele e isto é coisa de irmão mais velho, mesmo!
Eu penso; que se tivesse um irmão mais novo; eu o protegeria e seria amigo dele...

A realidade se apresentava pouco solidária, já nos meus primeiros anos de vida e parecia me preparar para o futuro...

(Foto- Rio Saí mirim SC - by Lee Bento)