Eu me dava conta, da dificuldade que a nossa familia tinha para se manter.Diante dos piores cenários, a minha mãe não perdia a fé, nem blasfemava a nossa sorte. Ela angariava dinheiro costurando em sua velha máquina, ajudava na pequena produção de pescado dos nossos tios; também fazia voluntáriamente, o papel de enfermeira local, secretariava a igreja protestante que frequentávamos e ainda cuidava da nossa prole...
Essa era a nossa Heroina de Aço!
Nós aprendiamos o exercício da solidariedade, a partir do exemplo no próprio lar.
O meu pai, começou a tecer, a reparar redes para os pescadores e pescava artezanalmente. Tinhamos uma horta e árvores frutíferas no quintal. Mesmo assim; a demanda familiar era maior que a nossa capacidade de supri-la.
Os meus queridos irmãos aprenderam o ofício da pesca, no intúito de suprir as nossas carências mais básicas. Afinal; o nosso irmão mais velho estudava em um colégio interno em outra cidade, e precisava ser auxiliado.
Por vezes; me peguei á beira mar, olhando para os ceus e implorando por uma intercessão divina.
Imagino que a minha fé inabalável, é fato desde o útero materno.
Embora tivéssemos educação cristã protestante, nunca fomos encabrestados para a fé cega; as coisas eram claras e perguntadas explícitamente. Essa maneira franca e objetiva de lidar com as questões mais preocupantes; me tornara mais capacitado para as futuras superações.
Quando me senti preparado para o batismo; eu comuniquei para a minha mãe, a minha decisão. Ela me indagou sobre a importãncia do evento; eu respondi objetivamente, que gostaria do batismo por imersão, como era tradição na igreja.
O ritual de passagem era bastante importante para mim; e fazê-lo de uma forma democrática, foi inesquecível!
O cenário deste batismo, ainda é bem vivo na minha mente...
Numa manhã insolarada de sábado; depois de semanas do curso batismal, fomos exatamente para a margem deste rio, que consta na fotografia a cima.(Rio Saí Mirim- Litoral norte de SC).
A cena me vem a mente como de um filme épico...
Todos nós vestíamos túnicas brancas; o pastor orava em meio as águas, com a mão direita voltada para os ceus e a esquerda, estendida na nossa direção. Nós entrávamos no rio, um a um, em oração silênciosa; os outros membros entoávam cânticos armoniosos, enquanto nós eramos batizados por imersão.
Eu sinto que a espiritualidade explícita; incutiu no meu ser, uma certeza quase visceral... menos hipócrita, sabe? Mais humana, mais igual, menos ransosa, menos acusatória e muito mais compreensiva...
Óbviamente a questão humanizada, nada tem haver com idiotice. Em determinadas ocasiões, devemos nos colocar como Jesus diante do templo!
Existem seres humanos, com a capacidade de subestimar os outros; de forma quase vampiresca...
Esses invariávelmente; também tem os seus próprios vampiros, são de carne e osso, e na maioria das vezes, os conhecemos por nome e sobrenome.
E é nesse momento; que a espiritualidade deve superar a carne, pois se olharmos os nossos algozes com superioridade; é provável que nos tornemos iguais a eles...
São aqueles que fazem o suposto bem, que clamam ao mundo as suas nobres obras; como se dissessem: Olhem o quanto eu sou bondoso!
São aqueles que acusam, que não perdoam; ou não se permitem serem perdoados...
São aqueles que se escondem nos templos, com medo do fim do mundo; mas o mundo não acaba e sim a carne fétida...
São aqueles que de tão pobres, só conseguem ter dinheiro; ou aqueles que querem ser vistos, mas não veem...
São aqueles que só aplaudem as suas próprias conquistas; que esquecem as questões alheias...
Mas também; são os mais infelizes do planeta e sofrem bastante com isso, por serem extremamente autocentrados.
É preciso ser paciente com estes; pois o perdão é a maior das nobrezas...
Porém; a ética deve caber em qualquer lugar...
Por favor; perdão pelo sincericídeo, mas há coisas que precisam ser ditas...
Voltemos ao que realmente importa agora...
(Foto by Lee Bento- Barra Rio Saí Mirim SC)

