
A comoção pelo desencarne da nossa mãe, havia gerado uma espécie de turbulência enorme nas nossas vidas, e também mudaria definitivamente o rumo da minha existência...
O meu pai e os meus três irmãos do meio, haviam voltado para Itapoá, o nosso irmão mais velho também havia retomado a sua rotina paulistana; e eu passei a morrar com a nossa irmã mais velha, com meu cunhado e três sobrinhos. Nós morávamos no décimo andar de um desses edifícios que aparecem em primeiro plano nesta fotografia.
A proximidade com o mar amenizava a saudade da minha querida Itapoá, mas não eliminava a dor deixada pela perda do meu anjo bom. Tudo era extremamente novo, eu nunca havia morado num prédio de apartamentos, antes. Não estava habituado aquela forma de cultura tão diferente, também não era filho daquela família; embora contasse com o carinho e com os cuidados da minha irmã mais velha. Eu sabia que havia virado uma espécie de batata quente, naquela confusão e que ninguém tinha culpa por isso. As regras de um apartamento na cidade, eram muito diferentes da vida que eu estava acostumado em Itapoá. A saudade que eu sentia dos meus irmãos e do meu pai, e a dor pela perda da minha companheira fiél; era quase sempre convertida em choro solitário. Por várias vezes, me peguei debruçado no para peito da janela do décimo andar, pensando que poderia acabar com aquela agonia se me atirasse dali. Mas nestes momentos solitários de dor, a imagem do meu querido pai, me vinha a mente e uma força salvadora me afastava daquele abismo físico e espiritual. Afinal; eu estaria sendo muito egoísta se cometesse tal ato, pois já bastava para ele a dor da perda da nossa mãe querida. As régras na casa da minha irmã mais velha, eram rígidas no sentido da educação e impóstas de uma forma, que eu não sabia lidar direito. Mas isto também me tornaria mais forte no futuro. Obrigado por isso mana querida. As pessoas não compartilhavam a minha dor, justamente por eu nunca ter deixado que elas percebessem. Afinal; cada um tem os seus próprios dilemas e eu não pretendia ser um problema para quem havia me acolhido; e também nunca fiz o papel de coitadinho ou vítima do destino. O meu corpo era frágil, mas o meu espírito é uma parede inviolável. Até hoje, sou meio fake emocionalmente, para os meus parentes; eles me conhecem muito na superficialidade e não tem muita noção de quem sou verdadeiramente. Me sinto muito distante da realidade familiar e penso que sempre foi, e continuará sendo assim pela eternidade. Os ataques a mim desferidos, nunca ultrapassam a realidade física e jamais atingirão a minha alma; pois este será o tesouro eterno que levarei comigo para sempre. O meu herói costumava dizer, que os outros podem tirar de nós, apenas o que for material e falível; mas o que agregarmos de bom ao nosso espírito, será eternamente nosso!
As minhas questões maiores eu trato na terapia, e provavelmente os meus parentes saberão um pouco mais quem sou, a partir destes escritos. Na maioria das vezes, a verbalização não resolve muito; a não ser que seja feita objetivamente, para um profissional capacitado para isto. As horas gastas com terapia, a fé em Deus, sem a necessidade de templos ou dógmas absurdos é o que me coloca no prumo da vida; e me faz conviver melhor com a minha solidão interna. Eu costumo dizer; que todos deveríamos valorizar a terapia, assim como o aprendizado nas escolas; pois o mundo seria sensivelmente melhor, se conhecêssemos um pouco mais de nós mesmos. Nós nos tornamos melhores socialmente; justamente quando aprendemos a lidar com os nossos próprios conflitos e frustrações. A terapia deveria ser mais acessível econômicamente, pois é uma questão de saúde pública urgente; em virtude de que as pessoas, estão cada vêz mais fóbicas socialmente! Enfim; eu não estou aqui para apliacar fórmulas; mesmo porque, as coisas não funcionam da mesma forma para todas as pessoas.
Voltando ao passado...
O meu irmão mais velho, pagou um ano dos meus estudos em uma escola protestante em Santos, a minha irmã e meu cunhado custearam a minha estadia na casa deles por mais um ano; e como as interferências muiti laterais familiares, na condução da minha vida, já começava a dar sinais de corrosão, em virtude do velho dilema. Quando todo mundo colabora; também todo mundo tem direito a dar opinião; e a minha vontade naquele cenário, estava relegada a segundo plano. Em virtude destes conflitos, eu sofri agressões descabidas e as marcas ultrapassaram em muito, as feridas deixadas no meu corpo. As agressões físicas e morais explícitas; vinham justamente de quem deveria me proteger. Afinal; o que eu havia feito de tão ruim assim? Hoje sei que só os mais fortes suportam esse tipo de flagelo; e o meu espírito sempre será inviolável. Pois o máximo que os meus algozes levarão de mim, será a carne fétida e perecível que findará um dia. Isso é um fato, e não meramente uma alegação infundada...
Com aquele infindável jogo de poder na condução da minha suposta educação, eu me tornei um mero espectador do meu próprio destino; e no desenrolar das coisas, o meu irmão mais velho, decidiu que eu deveria ir para um internato na cidade de São Paulo, afim de me dedicar aos estudos. Por ele ter influência com a comunidade protestante a qual pertencia, conseguiu uma bolsa de estudos em um colégio interno, no extremo sul da capital paulista. Eu não estava carente de normas ou régras absurdas, eu estava emocionalmente perdido, precisando de colo, afeto, carinho, amor e compreensão. Mas isso não parecia visível, aos olhos dos que me rodiavam naquele momento. Hoje; eu percebo que ir para o internato, foi a melhor coisa que eles fezeram por mim; não por terem me tirado da casa da minha querida irmã, pois eu estava bem lá; mas por de certa forma, eu poder me apropriar da minha vida, sem tantas interferências familares. Era tanta informação que eu não estava mais dando conta, sabe? Coisa de familia numerosa, mesmo!
Obrigado de coração, mano querido por esta atitude; embora a vida tenha nos afastado quase que definitivamente, por motivos alheios á nossa vontade; eu serei eternamente grato a você! Nós somos filhos do mesmo pai e da mesma mãe; mas temos posturas completamente antagônicas diante da vida e da forma que a conduzimos. Afinal; os seres humanos são meramente similares e cada ser é único, a partir das suas próprias questões ou convicções.
Foi exatamente; a vida sacrificada no internato e distante de todos, que teve papel significativo, no meu processo de formação e que me prepararia, para as adversidades que ainda estavam por vir...
(Foto meu vôo de Paraglide by Lee Bento)


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