segunda-feira, 6 de julho de 2009

Entre o ceu e a terra...


Era quinze de novembro, de mil novecentos e setenta e seis; dia de eleições gerais no Brasil, e como estávamos ainda na cidade de Santos, acompanhamos os parentes que deveriam votar, e também a nossa mãe que justifiaria o seu voto.
Ainda me lembro, que em virtude do numeroso batalhão familiar; alguns adultos se revezavam no cuidado dos pequenos, enquanto outros votavam. Como é bom ter famila numerosa, mesmo com todos os problemas que isso tende a gerar. Na realidade, as confusões são amenizadas pelas infindáveis diversões em grupo.
O dia parecia de festa para nós os pequenos; e como de praxe, nos reunimos para saborear o delicioso e sempre festeiro, macarrão com frango da nossa irmã mais nova. Ainda hoje sinto a falta daquele macarrão inigualável. Obrigado mana querida, por tão saborosa lembrança...
Os dias se seguiram sem nenhum outro acontecimento importante, a não ser os cuidados com a saúde da nossa heroina.
Tudo parecia estar bem, mas pela manhã do dia desenove de novembro, portanto; quatro dias após ter cumprido o seu dever cívico e justificado seu voto nas urnas; ela acordara com dores abdominais. Então, a nossa irmã mais nova a levou para o hopital e ficou com ela até a internação, que se sucedeu no fim da tarde. Segundo a minha irmã, ela estaria bem e aparentemente sem maiores complicações.
Na manhã do dia vinte logo cedo, quando a nossa irmã voltara á Santa Casa de Santos, para levar roupas, material de higiene pessoal e obter noticias sobre a saúde da nossa mãe; deparou-se com a cruel realidade. O nosso anjo bom, não havia resistido e desencarnou momentos antes...
Eu; ainda sem saber do acontecido, havia notado uma circulação meio nervosa, com o entra e sai de parentes. Parece que quanto mais eles tentavam disfarçar o fato; maior era a evidência de que algo estava errado; com os meus apelos constantes para saber a veradade, uma das minhas sobrinhas, acabou por me falar o que eu já suspeitava.
Parecia um pesadelo inacreditável; era como se eu houvesse sido tirado do plano carnal. Eu que não admitia a possibilidade do distanciamento terreno, agora me deparava com a dor do distanciamento permanente do meu anjo lindo. O espírito bondoso, leve, caridoso e sútil da minha heroina, não estaria mais presente entre nós; e como eu poderia viver sem aquela alma bondosa, a me facilitar a existência?
O meu choro fôra calado, os meus olhos ficaram estáticos e os meus ouvidos ensurdecidos; tudo parecia surreal; até a minha dor, parecia ter se transformada em uma espécie de torpor permanentante. Eu não me lembro de muitas coisas; até o inicio da noite, quando fui resgatado de um canto da parte superior da casa, pela minha irmã mais nova, dizendo que eu não estava só e que ainda éramos uma familia. Não lembro do velório, do cerimonial do enterro, não lembro dos dias que se seguiram...
Agora eu sei que a espiritualidade, me havia protegido de tamanha dor, que o espirito iluminado do meu anjo bom, estivera ao meu lado naqueles dias difíceis e que aquela morfina espiritual era provedencial e necessária.

Eu lembro que em Itapóa; nós tínhamos um papagaio que aprendeu a me imitar, chamando: "mãeeeeee..." ; essa era a primeira palavra, que eu costumeiramente pronunciava ao acordar; ela de pronto respondia, no sentido de me tranquilizar, com a sua voz calma e suave de mãe cuidadora, zelosa e dedicada...

Enfim; alguém havia se apressado, para enviar um anuncio atravéz da estação de radio de São Francisco do Sul; pois não tinhamos qualquer outra forma de contato com Itapoá. O nosso querido pai e os dois irmãos do meio, foram localizados, e em algumas horas chegariam a Santos; o nosso irmão mais velho, já morava na cidade de São Paulo e também não demorou muito a chegar.
O nosso universo familiar, transformara-se numa ebulição sem prescedentes até então.
Essa foi a nossa primeira grande tragédia que eu presenciara; mas não seria a única; pois a nossa história ainda teria caminhos muito espinhosos pela frente...

(Foto by net)



Nenhum comentário:

Postar um comentário