quinta-feira, 25 de junho de 2009

A solidão compartilhada na cidade de Santos...


Em virtude dos problemas de saúde da nossa mãe; eu que até então era filho amado e foco principal das atenções familiares, havia me tornado meio esquecido no meio de tamanha confusão...

Os meus irmãos e irmãs, tinham suas próprias urgências; eu era só mais uma criança meio perdida no entorno. Embora as minhas irmãs fossem carinhosas, generosas e atentas; não conseguiam dar conta da enorme demanda familiar, pois também tinham uma prole numerosa. Nós contávamos, com o auxilio dos fiéis e sempre solícitos amigos; tanto em Santos quanto em Itapoá.
O diagnóstico sobre a saúde da nossa heroina, não era nada favorável e ela teria que ser operada logo após os exames. O doutor Nedo Romitti; médico da Santa Casa de Santos, era um ótimo cirurgião gástrico, extremamente humanizado e cuidaria especialmente do nosso anjo bom...
A operação havia sido um sucesso, a minha doce companheira estava em franca recuperação e recebera alta hospitalar após uma semana. Mesmo convalescente e debilitada, em virtude da cirurgia que fora bastante invasiva; a paz e o sorriso franco que lhe era peculiar, não desaparecera daquela alma generosa que habitava o seu frágil corpo.
A vóz calma e gentil da minha genitora, nunca abandonou o meu espírito; é na verdade, um bálsamo revigorante na minha turbulenta caminhada terrena. Os meus pais, são o meu maior motivo de orgulho nesta existência, eu devo tudo o que sou hoje, a estes seres tão especiais. Não digo isto apenas por ser filho honrado, mas por perceber o quanto eles são queridos neste planeta, e provavelmente; estimados no plano espiritual. Tenho uma certeza quase visceral de reencontrá-los um dia e poder secar as infindáveis lágrimas, promovidas pela saudade que hoje fere o meu ser. Espero ser merecedor deste amor e digno o suficiente, para poder retribuir em igual escala.
Era mês de novembro, de mil novecentos e setenta e seis e as eleições aproximavam-se ; como a nossa heroina parecia estar reestabelecida, manifestava o desejo cívico de votar. Porém; todos os cuidados deveriam ser tomados, caso nós voltássemos á Itapoá, mas o melhor a ser feito, seria a justificativa do seu voto na cidade de Santos, para que fosse evitado qualquer complicação no quadro da saúde da nossa mãe.
Me lembro que muitos amigos e familiares, a visitavam na casa da nossa irmã e o carinho dispensado á nossa genitora, era tocante e explicitamente generoso. Ela dispertava nas pessoas, um sentimento muito superior á solidariedade; era uma forma curiosa de afeto das pessoas para com ela, que me tocava visivelmente. Por vezes, eu me aproximava dela em silêncio, como forma de oração, admiração e respeito; sem verdadeiramente, me ater a realidade daqueles dias...
A postura educada, generosa e a sutil leveza do espírito que habitava aquele frágil corpo; parecia transboradar a existência simples, sem qualquer pretenção do envaidecimento natural e humano.
A minha genitora, tinha a solidariedade quase impressa no seu ser; a grandeza das suas ações, ficava evidente, mesmo sem que ela ostentasse qualquer arroubo pretencioso. Parecia que ela tinha a exata noção do seu valor, sem a necessidade da verbalização ou averbação alheia.
Eu me sentia um espectador de tudo á minha volta; ainda vejo aquele cenário e quase posso ouvir as vozes das pessoas ao nosso redor. O meu olhar grato e meio perdido, se confundia com o cenário e por vezes; eu me afastava para orar e chorar sozinho pelos cantos, sem que alguém pudesse perceber a angústia que dominava a minha alma. Era como uma forma de torpor, que me abstraia daquela realidade meio insólita.
Por várias vezes, a observei me olhando calma e ternamente; como se orasse por mim, em silêncio. Nós éramos culplices sem que os outros sequer percebessem.
Nós jamais nos afastávamos por muito tempo, somos mais que mãe e filho, somos espíritos amigos pela eternidade, somos cuidadores eternos e recíprocos.
Eu lembro que certa vêz em Itapoá; no dia do meu aniversário, ela havia pedido uma música por carta, para uma estação de rádio em São Francisco do Sul; e nós ouvimos juntos ao pé do rádio. Mesmo sendo nos meus primeiros anos de vida, esta cena jamais me saiu da mente.
É gratificante me sentir um filho verdadeiramente amado, por uma alma tão especial quanta a dela.
Hoje percebo a maldade dos pais, que jogam os seus filhos pelas janelas dos apartamentos, que os arremessam contra o parabisa dos automóveis, que os quiemam com cigarro, que promovem torturas das mais variadas e cruéis.
Onde estará o Deus existente na raça humana? Será que a nossa sociedade esta se perdendo nela mesma? Ou será que a individualidade mesquinha estará corropendo a nossa alma! É deplorável perceber o mudo sendo degradando, justamente por quem deveria zelar por ele...

(Foto da cidade de Santos by net)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O Caminho para a cidade de Santos...

A nossa irmã mais velha e seu esposo, ficaram em Itapoá; assim como o nosso herói e os nossos dois irmãos do meio...

Minha mãe, minha irmã mais nova e eu; fomos levados de automóvel por um bondoso amigo da nossa familia, até a cidade de Garuva SC...

Meses mais tarde, este querido amigo foi assassinado a tiros covardemente na cidade de Garuva, por motivos políticos. Isso reafirma a tese de que um covarde, sempre mata um rei. E o faz, movido pela inveja nefasta, que corrompe o espírito do agressor. Em virtude disso, ele se torna digno de pena e invariávelmente; levará no seu próprio ser, as ferídas causada pela maldade que domina as almas confusas.

Voltando a nossa odisséia...
Minha mãe, minha irmã e eu descemos do carro ás pressas, meio sem tempo para agradecer e nos despedir de forma mais cordial, do nosso generoso amigo; pois o ônibus já estava de partida para Curitiba e de lá seguiríamos para Santos, no início da noite.
Essa odisséia se passou como um sonho distante e meio confuso; eu lembro vagamente da nossa chegada á Santos na manhã seguinte. Ainda consigo visualizar a figura da nossa heroina, em seu vestido florido em bege e creme, com bordas marrons, que o nosso pai havia comprado dias antes para ela. A figura meiga e frágil da nossa genitora andava com vagar e fadigada, em virtude do cansaço pela longa viagem e também, pela debilidade causada pela doença que a acometia.
De pronto, o meu cunhado que sempre fora solícito nos acolheu com o carinho e atenção que lhe era peculiar. Instaldos e alimentados, agora era chegada a hora de tomar as providências para o tratamento, pois a urgência era notória...
Os rumos das ações na intenção dos cuidados com a saúde dela, era discutido em familia e frequentemente, eu percebia o nervosismo explícito que nos rondava cotidianamente.
Eu pouco entendia destes trâmites e me ocupava apenas em brincar, sem me ater á gravidade daqueles dias atribulados.
Enfim; a internação e os exames haviam sido providenciados a tempo, e tudo parecia correr bem. Porém; as mudanças nos rumos das nossas vidas estavam apenas no começo; o futuro ainda desconhecido se apresentaria mais turbulento e implacável, para todos nós...


(Foto Rodovia BR 116 by net)