segunda-feira, 11 de maio de 2009

Tempestade violenta...

A nossa pequena casa de madeira; tinha quatro cômodos e uma vida social em movimento.



O nosso ninho, localizava-se no meio do terreno, protegido dos ventos marinhos, por uma seringueira enorme, um bambuzal, abacateiros, goiabeiras e uma infinidade de outras árvores...
Além da nossa numerosa familia; começaram a frequentar também a nossa casa, as garotas pretendentes ou namoradas dos meus irmãos. Junto vinham amigos, primos e primas; enfim...
Era tanta vida em ebulição, que não há tempo para narrar aqui. Eram brigas, piadas, rizadas, namoros, surras, travessuras... E o futebol da tarde á beira mar? Esse por si mesmo, já daria um livro!
Quantas histórias que a vida se encarregou de contar; assim como faziam os meus queridos genitores, normalmente em noites frias...
O meu pai, foi um memorável narrador das suas próprias histórias; eu percebo hoje, que herdei dele essa capacidade.
Como era bom passar férias em Itapoá, ouvir as belas histórias do meu velho...
Enquanto ele tecia as redes e fumava o seu inseparável fumo de carda; nós tomávamos café á luz da lamparina, nos deliciando com aquela profusão de boas histórias...
Há uma música que me leva ao meu Herói de carne e osso; ela diz assim: "...naquela mesa esta faltando ele; e a suadade dele esta doendo em mim! " . Essa música retrata o amor e a gratidão de um filho, por seu pai. Inclusive; me fez chorar por vezes...

Enfim; a vida é aprendizado contínuo e gradativo; pois quanto mais eu penso que sei, mais percebo o tamanho da minha ignorância...

Num dia de sol forte, os pescadores haviam notado um enorme cardume, muito perto da costa. Era uma quantidade bastante significativa de peixes médios; e uma variedade de espécies curiosa, também. Eram Betaras, Pampos, Bagres e etc. Me recordo, que após os lanços; as redes vinham repletas destes peixes e várias pessoas foram ajudar; pois era uma quantidade bem generosa de pescado. Parecia um enorme mercado de peixe á ceu aberto; isto se deu entre a seguda e terceira pedra (Ilha do meio e Mendanha); como eram chamadas essas ilhas, antigamente.
As pessoas limpavam os peixes, á margem do rio que divisava o nosso terreno. Inclusive o meu pai, minha mãe, meus irmãos e eu.
Foi um dia de muita fartura; todos tentavam processar o máximo de pescado possível; pois ainda não havia eletricidade em Itapoá.
Eu me recordo nítidamente, daquele dia bastante abafado e meio sufocante...
Embora nós estivéssemos; ora no mar ajudando a puxar as redes, ora no rio limpando os peixes; a sensação de calor sufocante, era bastante perceptível.
Entre três e quatro horas da tarde, algumas nuvens negras começaram a se formar á nordeste.
As pessoas, percebendo a tempestade que se anunciava; apressaram-se em voltar ás suas casas. A nossa prole, estava á passos da segurança do nosso humilde, mas aconchegante lar.
Aquela, não seria uma tempestade comum; mas nós tínhamos uma barreira de árvores, entre a nossa casa e a tempestade que se avolumava.
Com uma quantidade bem grande de pescado, já limpo; nos abrigamos ás preças na segurança do nosso lar.

Essas lembranças, ficaram gravadas na minha mente, com riqueza de detalhes; mesmo sendo eu ainda bem pequeno.
As primeiras rajadas de vento, começaram a uivar por entre as árvores; o meu pai e meus irmãos, reforçavam as portas e janelas que davam para a tempestade.
Chuva e ventos fortíssimos, mudavam a paisagem daquele lugar; árvores eram arancadas, algumas maiores, cairam expondo suas raizes. A chuva transformou-se em graniso e no meio da turbulência; o teto da nossa casa, vibrava como se fosse voar. Ao perceber a gravidade da tempestade, o meu pai, aos brados pelo desespero, pedia que minha mãe e os menores, se escondessem embaixo da mesa. E assim fizemos...
Eu meio em choque; com o nosso papagaio que ainda era filhote á mão, orava apavorado e em silêncio.
Uma rajada mais forte, levou parte do teto da nossa casa; pedaços e lascas, voavam por toda parte, todos estávamos molhados e tremendamente assustados. Após uns dez ou quinze minutos, a tempestade começou a se dissipar, o dia voltou a clarear e nós meio atônitos; saíamos para conferir os estragos deixados por aquela tempestade.
Toda a região havia sido atingida, a vizinhança aflita, questinava possíveis vítimas; pois a violência dos ventos foi realmente assustadora!
Anos depois, ainda víamos grandes árvores tombadas em meio a mata da redondeza.

Eu acredito; que para além da proteção divina, o que nos protegeu naquela ocasião, foi o cinturão de árvores bastante resistente, que havia na nossa propriedade.
Os estragos na região foram grandes, mas me parece que não houve nenhuma vítima fatal.
A nossa matilha estava aflita, mas estava a salvo; os danos materiais, também não era novidade na nossa história. Então, estava tudo mais o menos certo; afinal.
O susto havia sido grande; mas o nosso grupo continuava na estatística possitiva, daquela realidade tão adversa...

Hoje; vendo as tempestades no estado de Santa catarina, eu percebo que estes fenômenos não são novos por lá!


A vida parecia voltar ao normal; claro que não por muito tempo...

(Foto "Anoitecer em Itapoá Primeira pedra" by Net)

5 comentários:

  1. Gracias Rodrigo, benvenido caríssimo!

    ResponderExcluir
  2. Lee, realmente vc escreve muito bem!!
    Consegui sentir a brisa, o cheiro das frutas e das árvores que tinham no quintal da sua casa!!!
    Que maravilha de lugar!!
    Que maravilha de escritor!!!
    Bjs
    Deus te abençoe sempre!!!

    Carol

    ResponderExcluir
  3. Obrigado Carol; que bom que os meus escritos, provocam sentimentos desse porte em vc meu anjo!
    Obrigado pela bondade das palavras e fique sempre bem, ok?

    ResponderExcluir
  4. aqui pode ver o link para um dos textos que escrevi:http://blogdopessoalparaopessoal.blogspot.com/2009/04/o-refugio-do-lince-capitulo-i.html

    ResponderExcluir