quinta-feira, 28 de maio de 2009

Estrada e pontes...

É desse ponto mais alto, que os pescadores espiavam os cardumes; no intúito de visualiza-los e direcionar as redes de forma mais acertiva; em virtude disso esta pedra leva o nome de Pedra da espia.
Nos dias ensolarados de verão, com a maré cheia e água clara; a nossa trupe enfileirava-se sobre aquela pedra e um a um; nós saltávamos para o mar, como golfinhos na direção das ondas.
Essa era uma diversão que nos custava inúmeras surras; pois o nosso pai não perdoava travessuras; principalmente com riscos eminentes!
Havia vazantes de maré, que transformavam este cenário em terra firme. Eu gostaria de ter fotografado; também não sei se este fenômeno acontece ainda hoje. Afinal; a invasão humana, vem promovendo alterações climáticas nos quatro cantos do mundo. É gratificante poder relembrar os bons momentos e ter morado neste pedacinho do paraíso.
No duelo entre a preservação e o desenvolvimento, era previsível quem sairia perdendo. Porém; a vila de pescadores era bastante valente e respeitada. Os pescadores lutavam como podiam, para defender o território que por direito, lhes pertencia. As tentativas de invasão, vinham tanto por terra qunto pelo mar. Para além do dispóstos a lotear as terras; também existiam os grandes barcos de pesca que cruzavam a região e levavam absolutamente tudo o que encontavam no mar. Inclusive por várias vezes; redes eram levadas ou extremamente danificadas, por aquele tipo de pesca predatória. Como não havia fisalização efetiva, os próprios pescadores encarregavam-se disso e invariávelmente; intimidavam verbalmente a embarcação invasora. Normalmente não passava disso!
A pesca artezanal era bastante afetada por estes barcos e o período do Defeso, ainda não existia legalmente.
Já em terra firme; tratores e máquinas niveladoras, surgiram do mato como grandes dinossauros; homens e caminhões se apressavam na construção de pontes de madeira; o curso do rio que divisava o nosso terreno, foi desviado, o Campo da onça foi cortado ao meio e as alterações influenciaram objetivamente; na dizimação da fauna e da flora local... triste isso!
Novas casas foram construidas quase á beira mar. Porém; a população convencionou não permitir edifícios na orla marítima; esta foi uma conquistas dos valorosos habitantes nativos e novos moradores do local.

A minha irmã mais velha, mudou-se de Santos para Itapoá com o meu cunhado e construiram uma pequena casa no nosso terreno. Eles deram suporte afetivo e financeiro aos meus heróis, que já estavam bem maltratados pela vida difícil que levavam. Os remédios que a minha mãe tomava para bronquite, tinham efeitos colaterais danosos e a debilidade da saúde dela, ficava cada dia mais preocupante...
Numa tarde qualquer, a melhor amiga da minha mãe me chamara para uma conversa séria. A dona Marina me comunicou, que a nossa heroina deveria procurar recursos para tratar-se e o destino mais seguro, seria a cidade de Santos; pois uma das nossas irmãs morava lá. O nosso irmão mais velho, havia deixado o internato, ele já morava em São Paulo nesta ocasião e esta união de esforços seria valiosa no tratamento dela.
Todos pareciam estar de acordo, a ação me parecia urgente e pelo que percebo hoje; eu fui o ultimo a ser comunicado.
Diante da minha insistência em fazer companhia para a minha mãe na viagem; fui incluido no pacote de ultima hora. Eu não admitia ficar distante dela, em momento algum; imagina naquela circunstância?! Quando ela tinha que ir para cidades próximas e não me levava; eu ficava imaginando que se algo acontecesse e eu não estivesse por perto; quem iria socorre-la? A minha ligação com os meus genitores era quase visceral e de pertencimento espiritual recíproco; algo que só se pode sentir, mas de dificil verbalização. Eu sinto verdadeiramente que somos mais que parentes carnais.
Enfim; viajamos para Santos em busca de tratamento para a nossa mãe e logo ela começaria a fazer os primeiros exames...


(Foto- Primeira pedra Itapoá-by Lee Bento)

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A nossa matilha começa a se dispersar...



A saúde dos meus pais, dava sinais claros de fragilidade.






O nosso Guerreiro; ainda tinha sequélas deixadas por uma cirurgia, em virtude de uma úlcera no estômago e também pelas dificuldades daqueles anos difíceis no Brasil.
A nossa Heroina; se mostrava fragilizada e bastante envelhecida, por motivos correlatos à nossa história.
Por ser filho temporão, sou tio de sobrinhos mais velhos que eu; em decorrência disso, tenho uma visão diferente de alguns dos meus irmãos, sobre os meus pais.
Eu acredito que os meus irmãos e irmãs, tiveram uma vida mais atribulada que a minha; alguns tem as suas próprias razões para cultivar os seus ranços, que provavelmente; não foram resolvidos a tempo.
Eu venho tentando não me contaminar com ransos alheios; mas confesso, que este não é um exercício fácil.

O nosso irmão mais velho, já estudava em um colégio interno; outro irmão, passou a morar na cidade de Santos, com uma das nossas irmãs e sua família.
Este irmão querido, nasceu com uma luz especial; ele era o mais calmo e o mais moreno dos meninos. No futuro, ele nos impressionaria significativamente!
Porém; esta é uma história que eu devo contar mais tarde...

Nós; os três filhos restantes, ficamos morando no paraiso com os nossos pais e também contávamos com a solidariedade local.
É notável, as relações que uma vila de pescadores desenvolve e normalmente; os pescadores são muito solidários entre sí.
Eu lembro de tempestades com ventos e chuva fortes; que as vezes duravam meses, esse período era chamado de lestada e a solidariedade era tremendamente vital; em tais circunstâncias.
Dias difíceis aqueles; canoas tripuladas por amigos, irmãos ou parentes; afundavam ás nossas vistas, em virtude do mar revolto. Porém; eu não lembro de pescadores mortos no mar; ao contrário de alguns turistas incautos.
Com muita frequência; pessoas eram salvas por pescadores, que se lançavam ao mar em busca de vidas.
O motivo mais comum destes afogamentos, se dava por conta de uma boia, bola ou qualquer brinquedo infantil; que normalmente são levados pelos ventos.
Alguns turístas desavizados, não levavam em conta os riscos comuns; como buracos, correntezas e partiam mar a dentro, em busca destes brinquedos.
Por vezes; algumas tagédias se sucederam, sem que alguém pudesse intervir com sucesso. As cenas de desespero, das familias atingidas por essas tragédias, são tristes e visualmente marcantes; principalmente quando se é criança.

Certa vêz, o meu pai passou a noite velando um corpo á beira mar; o qual encontrara de madrugada, enquanto pescava com a sua inseparável Tarrafa.
Nesta ocasião; eu lembro dele chegando em casa, no meio da madrugada, comunicando ter encontrado o corpo de um homem, que havia se afogado na tarde anterior.
Sem se fazer de rogado; o meu Herói trocou a roupa molhada, tomou o seu costumeiro café; e de posse de uma rede que ele mesmo tecia, do seu inseparável fumo de carda, de um banquinho e uma lamparina; ele partiu sózinho para velar o corpo à beira mar, até o dia raiar.
Eu confesso que fiquei bastante impressionado com a atitude do meu pai; ele parecia em estado de oração silenciosa, enquanto se preparava para aquele velório solitário.
Hoje; eu percebo aquela atitude, como louvável e extremamente humanizada. Para mim, foi mais que uma lição de respeito ao próximo; foi uma atitude respeitosa para com a famila daquele homem, que havia sido levado pelo mar de forma tão trágica.
Eu percebia que para o meu pai; a existência da divindade, estava para além dos estereótipos religiosos.
Obrigado pelo belo exemplo; véio...

Nos anos sessenta não havia sequer, uma estrada no paraíso. Automóveis, ônibus e caminhões, usavam uma estrada de terra, que cortava uma serrinha lamacenta e extremamente perigosa. Depois; ainda havia mais quatro quilômetros pela praia, até nós.
O paraíso ficava realmente distante das futilidades urbanas; mas bastante sofrível no quesito inclusão social...

Eu penso ter uma visão mais romantizada dos fatos; justamente pela minha tenra idade e acredito que os caçulas, são realmente mais protegidos. Até por uma questão conjuntural, mesmo!
A história dos nossos genitores, lembra a dos salmões. Eles vencem as corredeiras, depositam e fecundam os seus ovos; depois morrem, cumprindo assim a sua missão tão nobre, no milagre da renovação da vida.
Os meus pais nunca limitaram o meu aprendizado, nem usavam histórias hipóciritas para me educar. Eu aprendi a ler, folheando gibis, comecei a ganhar livros infantis; mais tarde, pude ler a coleção do escritor Julho Werner, Seleções e por aí foi.
Embora eu tivesse dificuldade para ler em público, tinha facilidade para interpretar e assimilar textos. Esta facilidade com as ciências humanas, ajudou na minha formação acadêmica e nas escolhas que eu venho fazendo ao longo da vida.
Logo que eu pude decidir por conta própria; passei a cuidar sozinho das minhas questões econômicas e nunca deleguei esta função a ninguém!
Não gosto de acumular dívidas, não tenho pendências jurídicas e devo poucos favores.Tudo na minha vida foi cobrado, tudo no meu universo teve preço super faturado e talvez graças a isso; eu não tenha dívidas morais ou econômicas.
É vital ser grato, ter a alma limpa e o nosso espírito deve ser inviolável; pois o máximo que os nossos algozes terão, será a nossa carne; que se por acaso for de alguma valia...

As coisas ficavam mais difíceis para mim; quando o meu irmão mais velho, vinha passar as férias conosco. Ele perturbava os meus pais, alegando que eu era extremante livre no Paraíso.
Ora bolas; eu era uma criança amada pelos meus pais, de bem com a vida e estava integralizado no meu habitat. As neurozes não me pertenciam, mas invariávelmente, esta era a minha temporada de surras; eu dava graças a Deus, quando as férias dele terminavam e ele voltava para o internato...
Eu não me importava de apanhar pelas travessuras que fazia; mas odiava quando apanhava sem motivos, ou por uma pseudo educação e sem propósito, e que sempre partiam de alegações infundadas, do meu irmão mais velho. O papel do chato naquela ocasião, coube a ele e isto é coisa de irmão mais velho, mesmo!
Eu penso; que se tivesse um irmão mais novo; eu o protegeria e seria amigo dele...

A realidade se apresentava pouco solidária, já nos meus primeiros anos de vida e parecia me preparar para o futuro...

(Foto- Rio Saí mirim SC - by Lee Bento)

quarta-feira, 13 de maio de 2009

A vida em profusão...

Em várias ocasiões; nós abrigamos turistas acampados em barracas, que as vezes eram apanhados por alguma tempestade

Algumas familias as quais nós socorríamos; tornavam-se mais próximas e vinham com frequência, compartilhar as delicias do paraíso conosco. As nossas irmãs casadas, também traziam suas ramificações familiares; eram cunhados, filhos, concunhados, sogros, enfim. As vezes também traziam problemas, como toda família normal. Mas invariávelmente; estes encontros promoviam confraternizações, regadas por boas histórias, rizos rasgados e passeios divertidos por Itapoá.
Para além do nosso endereço; havia lugares fantásticos como: O Campo da Onça; que era um descampado natural, composto de pequenos arbustos; uma espécie de savana. A população mais antiga, afirmava existir onças ali; eu nunca tive o prazer deste encontro. Existia também o famoso Samambaial; um belo sítio de areias brancas como a neve, que localisava-se á margem sul, do caldaloso rio Saí Mirim. Havia lá ainda, um engenho para manufatura de farinha de mandióca.
A dois ou tres quilômetros da costa, há uma ilha com uma praia interna, que é convite fácil, para um ótimo mergulho.
O nosso pacote familiar, vinha completo para viagem; eu imagino que os nossos pais, entregavam nas mãos de Deus e também desaceleravam; ou do contrário, teriam ficado loucos. Mas de certa forma, todos acabavam cuidado de todos; pois afinal, todos eram pais, mães e irmãos.
Nós tinhamos amigos, oriundos de várias partes do país e de diferentes classes socio culturais. Os meus pais tinham um código próprio de conduta, para a nossa sociedade familiar.
Não importava para eles; o grau de instrução das pessoas, a cor da pele, a condição econômica, a vertente religiosa e nem mesmo a correlação sanguínea.
É óbvio, que diante das nossas dificuldades econômicas; não poderiamos fazer mais do que cabia á nossa prole. Porém; a solidariedade era fato cumum entre nós.
Em contra partida; se a conduta ética não fosse respeitada, o indivíduo não seria bem vindo e era informado disso. Os meus pais repudiavam os difamadores, os preconceituosos, os autocentrados, arrogantes, provincianos, beberrões, arroaceiros ou gente com vibe ruim.
Por ser bastante objetivo e lider nato; cabia ao meu pai o papel da disciplina mais rígida. Ele era frequentemente; acusado de ser bravo, rude, pouco tolerante e coisas desse tipo. Mas também, não ligava muito para o "Zé Povinho"; como ele mesmo se referia às hienas de plantão.
Eu fui educado pela cartilha dos meus pais; aprendi a valorizar a forma de atuação deles, na minha formação e serei eternamente grato por isso.

Alguns destes ditos populares; são pérolas e me fazem lembrar os meus generosos genitores...

-Quem costuma usar a acusação, como mecanismo de defesa; normalmente já possui as respostas prontas...

-O indivíduo que sempre faz o papel da vítima; provavelmente seja vítima dele mesmo...

-Aquele que não se esforça para ser bom filho; é também pouco provável, que se torne um bom cidadão...

-Quem quizer bem feito, que o faça; quem não o quizer, que mande fazer...

-Normalmente; quem tem dificuldade para delegar ou colaborar espontâneamente, tem facilidade para a cobrança exessiva...

-Quem não tem a capacidade de apludir as vitórias alheias; fatalmente não terá com quem dividir a sua própria vitória...

Estes ditos parecem simples; mas pô-los em prática, torna-se extremamente trabalhoso; se faz nescessário o exercício constante de distanciamento, de auto análise e de reflexão. Pois é saudável, evitarmos posturas emocionalizadas ou rançosas.

Será que a vida é tão complicada assim? Ou nós devemos adequar melhor, as nossas habilidades, no sentido de poder lidar de forma menos ruidosa, com as novas questões, que frequentemente se apresentam?
Eu penso que estas questões analítico filosóficas; não devem ocupar muito espaço aqui, neste momento. Mas penso que caiba reflexão sim; pois quem não se questiona; também tem dificuldade para uma convivência social mais saudável...

Houve dias; em que o nosso terreno parecia uma colônia de férias, daquelas dos filmes teens da Sessão da Tarde, sabe?
Aquela missigenação, nos agregou bastante no sentido positivo...

As nossas alegrias infantis, os sotaques variados, que por vezes se confundiam; era para mim tão saboroso, quanto uma torta de limão!
Mesmo não viajando nas férias; nós desfrutávamos as nossas, praticamente o ano todo; pois sempre tinhamos visitas agradáveis no Paríso.
Hoje; eu percebo que as famílias que nós hospedávamos, gratuita e prazeirosamente, durante as férias; além de valorizarem a alegria e descontração, também primavam por educação e respeito mútuo.
Isto de certa forma, consolidava a nossa rede social e nos ligava ao mundo externo.
Afinal; a nossa familia se ramifica por boa parte deste país; inclusive alguns queridos irmãos, nasceram no estado de São Paulo. Mais própriamente na cidade de Santos, no litoral sul do estado. As nossas duas irmãs haviam nascido em Penha, Santa Catarina e eu em Itajái.


Coisa de família meio nômade; sabe?

(Foto by Lee Bento)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Tempestade violenta...

A nossa pequena casa de madeira; tinha quatro cômodos e uma vida social em movimento.



O nosso ninho, localizava-se no meio do terreno, protegido dos ventos marinhos, por uma seringueira enorme, um bambuzal, abacateiros, goiabeiras e uma infinidade de outras árvores...
Além da nossa numerosa familia; começaram a frequentar também a nossa casa, as garotas pretendentes ou namoradas dos meus irmãos. Junto vinham amigos, primos e primas; enfim...
Era tanta vida em ebulição, que não há tempo para narrar aqui. Eram brigas, piadas, rizadas, namoros, surras, travessuras... E o futebol da tarde á beira mar? Esse por si mesmo, já daria um livro!
Quantas histórias que a vida se encarregou de contar; assim como faziam os meus queridos genitores, normalmente em noites frias...
O meu pai, foi um memorável narrador das suas próprias histórias; eu percebo hoje, que herdei dele essa capacidade.
Como era bom passar férias em Itapoá, ouvir as belas histórias do meu velho...
Enquanto ele tecia as redes e fumava o seu inseparável fumo de carda; nós tomávamos café á luz da lamparina, nos deliciando com aquela profusão de boas histórias...
Há uma música que me leva ao meu Herói de carne e osso; ela diz assim: "...naquela mesa esta faltando ele; e a suadade dele esta doendo em mim! " . Essa música retrata o amor e a gratidão de um filho, por seu pai. Inclusive; me fez chorar por vezes...

Enfim; a vida é aprendizado contínuo e gradativo; pois quanto mais eu penso que sei, mais percebo o tamanho da minha ignorância...

Num dia de sol forte, os pescadores haviam notado um enorme cardume, muito perto da costa. Era uma quantidade bastante significativa de peixes médios; e uma variedade de espécies curiosa, também. Eram Betaras, Pampos, Bagres e etc. Me recordo, que após os lanços; as redes vinham repletas destes peixes e várias pessoas foram ajudar; pois era uma quantidade bem generosa de pescado. Parecia um enorme mercado de peixe á ceu aberto; isto se deu entre a seguda e terceira pedra (Ilha do meio e Mendanha); como eram chamadas essas ilhas, antigamente.
As pessoas limpavam os peixes, á margem do rio que divisava o nosso terreno. Inclusive o meu pai, minha mãe, meus irmãos e eu.
Foi um dia de muita fartura; todos tentavam processar o máximo de pescado possível; pois ainda não havia eletricidade em Itapoá.
Eu me recordo nítidamente, daquele dia bastante abafado e meio sufocante...
Embora nós estivéssemos; ora no mar ajudando a puxar as redes, ora no rio limpando os peixes; a sensação de calor sufocante, era bastante perceptível.
Entre três e quatro horas da tarde, algumas nuvens negras começaram a se formar á nordeste.
As pessoas, percebendo a tempestade que se anunciava; apressaram-se em voltar ás suas casas. A nossa prole, estava á passos da segurança do nosso humilde, mas aconchegante lar.
Aquela, não seria uma tempestade comum; mas nós tínhamos uma barreira de árvores, entre a nossa casa e a tempestade que se avolumava.
Com uma quantidade bem grande de pescado, já limpo; nos abrigamos ás preças na segurança do nosso lar.

Essas lembranças, ficaram gravadas na minha mente, com riqueza de detalhes; mesmo sendo eu ainda bem pequeno.
As primeiras rajadas de vento, começaram a uivar por entre as árvores; o meu pai e meus irmãos, reforçavam as portas e janelas que davam para a tempestade.
Chuva e ventos fortíssimos, mudavam a paisagem daquele lugar; árvores eram arancadas, algumas maiores, cairam expondo suas raizes. A chuva transformou-se em graniso e no meio da turbulência; o teto da nossa casa, vibrava como se fosse voar. Ao perceber a gravidade da tempestade, o meu pai, aos brados pelo desespero, pedia que minha mãe e os menores, se escondessem embaixo da mesa. E assim fizemos...
Eu meio em choque; com o nosso papagaio que ainda era filhote á mão, orava apavorado e em silêncio.
Uma rajada mais forte, levou parte do teto da nossa casa; pedaços e lascas, voavam por toda parte, todos estávamos molhados e tremendamente assustados. Após uns dez ou quinze minutos, a tempestade começou a se dissipar, o dia voltou a clarear e nós meio atônitos; saíamos para conferir os estragos deixados por aquela tempestade.
Toda a região havia sido atingida, a vizinhança aflita, questinava possíveis vítimas; pois a violência dos ventos foi realmente assustadora!
Anos depois, ainda víamos grandes árvores tombadas em meio a mata da redondeza.

Eu acredito; que para além da proteção divina, o que nos protegeu naquela ocasião, foi o cinturão de árvores bastante resistente, que havia na nossa propriedade.
Os estragos na região foram grandes, mas me parece que não houve nenhuma vítima fatal.
A nossa matilha estava aflita, mas estava a salvo; os danos materiais, também não era novidade na nossa história. Então, estava tudo mais o menos certo; afinal.
O susto havia sido grande; mas o nosso grupo continuava na estatística possitiva, daquela realidade tão adversa...

Hoje; vendo as tempestades no estado de Santa catarina, eu percebo que estes fenômenos não são novos por lá!


A vida parecia voltar ao normal; claro que não por muito tempo...

(Foto "Anoitecer em Itapoá Primeira pedra" by Net)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

As adversidades no Paraiso...

Eu me dava conta, da dificuldade que a nossa familia tinha para se manter.





Diante dos piores cenários, a minha mãe não perdia a fé, nem blasfemava a nossa sorte. Ela angariava dinheiro costurando em sua velha máquina, ajudava na pequena produção de pescado dos nossos tios; também fazia voluntáriamente, o papel de enfermeira local, secretariava a igreja protestante que frequentávamos e ainda cuidava da nossa prole...
Essa era a nossa Heroina de Aço!
Nós aprendiamos o exercício da solidariedade, a partir do exemplo no próprio lar.
O meu pai, começou a tecer, a reparar redes para os pescadores e pescava artezanalmente. Tinhamos uma horta e árvores frutíferas no quintal. Mesmo assim; a demanda familiar era maior que a nossa capacidade de supri-la.

Os meus queridos irmãos aprenderam o ofício da pesca, no intúito de suprir as nossas carências mais básicas. Afinal; o nosso irmão mais velho estudava em um colégio interno em outra cidade, e precisava ser auxiliado.
Por vezes; me peguei á beira mar, olhando para os ceus e implorando por uma intercessão divina.
Imagino que a minha fé inabalável, é fato desde o útero materno.
Embora tivéssemos educação cristã protestante, nunca fomos encabrestados para a fé cega; as coisas eram claras e perguntadas explícitamente. Essa maneira franca e objetiva de lidar com as questões mais preocupantes; me tornara mais capacitado para as futuras superações.

Quando me senti preparado para o batismo; eu comuniquei para a minha mãe, a minha decisão. Ela me indagou sobre a importãncia do evento; eu respondi objetivamente, que gostaria do batismo por imersão, como era tradição na igreja.
O ritual de passagem era bastante importante para mim; e fazê-lo de uma forma democrática, foi inesquecível!
O cenário deste batismo, ainda é bem vivo na minha mente...
Numa manhã insolarada de sábado; depois de semanas do curso batismal, fomos exatamente para a margem deste rio, que consta na fotografia a cima.(Rio Saí Mirim- Litoral norte de SC).

A cena me vem a mente como de um filme épico...
Todos nós vestíamos túnicas brancas; o pastor orava em meio as águas, com a mão direita voltada para os ceus e a esquerda, estendida na nossa direção. Nós entrávamos no rio, um a um, em oração silênciosa; os outros membros entoávam cânticos armoniosos, enquanto nós eramos batizados por imersão.
Eu sinto que a espiritualidade explícita; incutiu no meu ser, uma certeza quase visceral... menos hipócrita, sabe? Mais humana, mais igual, menos ransosa, menos acusatória e muito mais compreensiva...
Óbviamente a questão humanizada, nada tem haver com idiotice. Em determinadas ocasiões, devemos nos colocar como Jesus diante do templo!
Existem seres humanos, com a capacidade de subestimar os outros; de forma quase vampiresca...
Esses invariávelmente; também tem os seus próprios vampiros, são de carne e osso, e na maioria das vezes, os conhecemos por nome e sobrenome.
E é nesse momento; que a espiritualidade deve superar a carne, pois se olharmos os nossos algozes com superioridade; é provável que nos tornemos iguais a eles...

São aqueles que fazem o suposto bem, que clamam ao mundo as suas nobres obras; como se dissessem: Olhem o quanto eu sou bondoso!
São aqueles que acusam, que não perdoam; ou não se permitem serem perdoados...
São aqueles que se escondem nos templos, com medo do fim do mundo; mas o mundo não acaba e sim a carne fétida...
São aqueles que de tão pobres, só conseguem ter dinheiro; ou aqueles que querem ser vistos, mas não veem...
São aqueles que só aplaudem as suas próprias conquistas; que esquecem as questões alheias...
Mas também; são os mais infelizes do planeta e sofrem bastante com isso, por serem extremamente autocentrados.
É preciso ser paciente com estes; pois o perdão é a maior das nobrezas...
Porém; a ética deve caber em qualquer lugar...

Por favor; perdão pelo sincericídeo, mas há coisas que precisam ser ditas...

Voltemos ao que realmente importa agora...

(Foto by Lee Bento- Barra Rio Saí Mirim SC)