É desse ponto mais alto, que os pescadores espiavam os cardumes; no intúito de visualiza-los e direcionar as redes de forma mais acertiva; em virtude disso esta pedra leva o nome de Pedra da espia.Nos dias ensolarados de verão, com a maré cheia e água clara; a nossa trupe enfileirava-se sobre aquela pedra e um a um; nós saltávamos para o mar, como golfinhos na direção das ondas.
Essa era uma diversão que nos custava inúmeras surras; pois o nosso pai não perdoava travessuras; principalmente com riscos eminentes!
Havia vazantes de maré, que transformavam este cenário em terra firme. Eu gostaria de ter fotografado; também não sei se este fenômeno acontece ainda hoje. Afinal; a invasão humana, vem promovendo alterações climáticas nos quatro cantos do mundo. É gratificante poder relembrar os bons momentos e ter morado neste pedacinho do paraíso.
No duelo entre a preservação e o desenvolvimento, era previsível quem sairia perdendo. Porém; a vila de pescadores era bastante valente e respeitada. Os pescadores lutavam como podiam, para defender o território que por direito, lhes pertencia. As tentativas de invasão, vinham tanto por terra qunto pelo mar. Para além do dispóstos a lotear as terras; também existiam os grandes barcos de pesca que cruzavam a região e levavam absolutamente tudo o que encontavam no mar. Inclusive por várias vezes; redes eram levadas ou extremamente danificadas, por aquele tipo de pesca predatória. Como não havia fisalização efetiva, os próprios pescadores encarregavam-se disso e invariávelmente; intimidavam verbalmente a embarcação invasora. Normalmente não passava disso!
A pesca artezanal era bastante afetada por estes barcos e o período do Defeso, ainda não existia legalmente.
Já em terra firme; tratores e máquinas niveladoras, surgiram do mato como grandes dinossauros; homens e caminhões se apressavam na construção de pontes de madeira; o curso do rio que divisava o nosso terreno, foi desviado, o Campo da onça foi cortado ao meio e as alterações influenciaram objetivamente; na dizimação da fauna e da flora local... triste isso!
Novas casas foram construidas quase á beira mar. Porém; a população convencionou não permitir edifícios na orla marítima; esta foi uma conquistas dos valorosos habitantes nativos e novos moradores do local.
A minha irmã mais velha, mudou-se de Santos para Itapoá com o meu cunhado e construiram uma pequena casa no nosso terreno. Eles deram suporte afetivo e financeiro aos meus heróis, que já estavam bem maltratados pela vida difícil que levavam. Os remédios que a minha mãe tomava para bronquite, tinham efeitos colaterais danosos e a debilidade da saúde dela, ficava cada dia mais preocupante...
Numa tarde qualquer, a melhor amiga da minha mãe me chamara para uma conversa séria. A dona Marina me comunicou, que a nossa heroina deveria procurar recursos para tratar-se e o destino mais seguro, seria a cidade de Santos; pois uma das nossas irmãs morava lá. O nosso irmão mais velho, havia deixado o internato, ele já morava em São Paulo nesta ocasião e esta união de esforços seria valiosa no tratamento dela.
Todos pareciam estar de acordo, a ação me parecia urgente e pelo que percebo hoje; eu fui o ultimo a ser comunicado.
Diante da minha insistência em fazer companhia para a minha mãe na viagem; fui incluido no pacote de ultima hora. Eu não admitia ficar distante dela, em momento algum; imagina naquela circunstância?! Quando ela tinha que ir para cidades próximas e não me levava; eu ficava imaginando que se algo acontecesse e eu não estivesse por perto; quem iria socorre-la? A minha ligação com os meus genitores era quase visceral e de pertencimento espiritual recíproco; algo que só se pode sentir, mas de dificil verbalização. Eu sinto verdadeiramente que somos mais que parentes carnais.
Enfim; viajamos para Santos em busca de tratamento para a nossa mãe e logo ela começaria a fazer os primeiros exames...
(Foto- Primeira pedra Itapoá-by Lee Bento)




