
O litoral catarinense e o Paulista; fazem pano de fundo para a minha odisseia familiar.
Eu Ainda tenho na memória alguns fleches das nossas idas e vindas por aquelas estradas difíceis. Sou o filho caçula de uma família de sete irmãos. Éramos cinco garotos e duas meninas; que por serem mais velhas, já eram mães quando eu nasci. Quatro dos meus irmãos haviam nascido em Santos, cidade do litoral Paulista, outros como eu, haviam nascidos em Santa Catarina, mais propriamente no município de Penha.
Era um dia frio nos anos da ditadura, a vida empurrava a nossa prole, de Santos para Santa Catarina novamente. Só que desta vez não era por falta de dinheiro ou trabalho; mas pela força da mordaça impiedosa da ditadura imposta nos anos sessenta; que também foram chamados de anos de chumbo.
Quem não tem olhar mais clínico ou viveu aqueles tempos; também não tem a noção das barbaridades cometidas no seio das famílias brasileiras. A ditadura no Brasil foi extremamente cruel com o nosso povo já tão cansado de ser espoliado. Os processos colonizadores, sempre foram banhados com muito mais sangue de inocentes do que se permitiu saber. É estranho pensar que o maior algoz do planeta é justamente o homem. O ser humano tem características virais; ele se alimenta do seu hospedeiro até mata-lo, e por consequência more também. (No filme Matrix este tema é abordado). A grande diferença é que o aprendizado humano; embora muito desqualificado, tem dado provas de processos evolutivos concretos e bastante visíveis. Este é um fato inegável. Também não podemos desqualificar a capacidade do ser humano em gerar soluções das mais diversas ordens.
Eu penso que o processo histórico deve nos auxiliar na intenção do aprendizado; e nunca no sentido do cultivo ao ódio. Pois quando odiamos os outros, estamos disseminando ódio á nossa própria espécie. Já que supostamente somos todos criados á imagem e semelhança do poder criador.
Vamos deixar as questões histórico filosóficas, para quem domina melhor este assunto e voltemos aos fatos.
O meu pai havia ficado escondido em Santos por uma questão de segurança, as duas irmãs mais velhas já estavam casadas e também ficaram. A minha mãe e nós, os cinco garotos, rumamos para o sul, num porão de navio e que se tudo desse certo, aportaria em São Francisco do Sul SC. Porém o nosso destino era uma vila de pescadores que se localiza do lado oposto da baía. A travessia era feita por canoas á motor e naquele dia parecia que nem a meteorologia estava interessada em ajudar. Uma tempestade se pronunciava, e quando estávamos no meio da travessia que deveria levar meia hora, fomos colhidos pelo vento e pela chuva. Aquela pequena canoa á motor parecia uma folha jogada de um lado para o outro por entre as ondas, mas também era mais valente do que parecia ser.
Foi exatamente no meio daquela tempestade que me dei conta da minha existência.
Nós estávamos cobertos por uma lona espessa, a embarcação era jogada de um lado para outro e eu reconhecia a voz doce e tranquilizadora da minha mãe a nos acalmar...
São os meus primeiros momentos de reconhecimento da minha existência no planeta, porém algo me dizia que a vida seria assim dali para a frente! Eu também penso que só os mais tenazes são capaz de suportar as maiores intempéries da própria existência.
Hoje não me vejo melhor ou pior que ninguém, apenas mais calado e reflexivo; pois as nossas verdades se tornariam muito chatas se fossem unânimes...A vida nos da, e continua nos dando mais do que nós esperamos dela, porém; primeiro devemos fazer a lição de casa e pedir com sabedoria.
(Foto Meu Primeiro voo de paraglider - S. Vicente SP by Lee Bento)


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