quinta-feira, 9 de julho de 2009

Chegando a Itapoá de carona...















Acesse o link abaixo e assista o video - Certas coisas, Lulu Santos e depois volte ao Blog: 
http://youtu.be/nyQMmnM-8EU

Eu saí do internato e fui para Itapoá, tentando pensar numa ação mais acertiva para a minha vida; e eu também queria rever o meu Velho lobo do mar. Afinal; a falta que sinto dos meus anjos genitores é quese visceral, e existem tantas histórias; que eu não consigo visualizar o fim destes relatos. Espero verdadeiramente, que a espiritualidade me capacite para tanto...

Como de costume; eu coloquei a minha pouca tralha em uma mochila, fui para um posto a beira da rodovia, á procura de uma carona segura rumo ao sul do país. Na minha visão de adolescente; as pessoas eram aparentemente, mais confiáveis e menos cruéis. Porém; a maturidade nos torna muito mais refratários e supostamente mais incrédulos.
Sentado ao lado da lanchonete de um posto de combustíveis na BR 116; eu analisava quem poderia me conceder uma carona segura. Então; um fusca vermelho com dois homens, parou para abastecer. Me sentido seguro, os abordei e pedi uma carona; o motorista me perguntou o destino e eu fiz um breve relato da minha história. De pronto fui atendido e eles me convidaram para um lanche. Grato pela carona recusei o lanche; porém fui comunicado que só pararíamos novamente, nas proximidades da cidade de Curitiba, capital do Paraná. Eles estavam indo para a cidade de Florianópolis, capital do estado de Santa catarina; então eu resolvi aceitar também o lanche. Os dois homens aparentavam meia idade, pareciam tranquilos e extremamente despreocupados. Após comermos; entramos no carro como bons companheiros de viagem; e tudo parecia correr na mais completa normalidade. Porém; quando nos aproxímávamos de um posto da polícia rodoviária, nas proximidades da cidade de Cajati, ainda no estado de São Paulo; os dois homens meio esbaforidos, pediram para que eu escondesse uma pequena mala, que sequer eu havia notado. Era uma pasta tipo 007, que estava atrás do banco do motorista. De pronto, atendi o pedido sem maiores indagações e coloquei a pasta embaixo do banco, cobrindo-a com a minha mochila. Notei que eles transportavam algo irregular e que a pasta era bastante pesada. Após passarmos pela polícia, sem sermos parados, o silêncio foi quebrado, por um visível suspiro de alívio dos dois ocupantes do fusca. Percebi então; que existia algo muito irregular e que a minha presença, servia como disfarce para os dois homens. Embora eu tivesse percebido tudo com muita clareza; não deixei transparecer medo algum para eles. De pronto os dois fizeram questão de me tranquilizar e cairam numa gargalhada; que apenas eles entendiam o real motivo. Então; a conversa voltou a normalidade e os dois me parabenizaram pela iniciativa de esconder a pasta colocando a minha mochila por cima. Os dois foram extremamente educados durante todo o percurso, e ao chegarmos a Curitiba, paramos em um posto fora da cidade, para abastecer. Almoçamos; eles gentilmente, se prontificaram para pagar o meu almoço e eu aleguei que ficaria ali mesmo. Os dois riram da minha atitude; pois perceberam que eu estava tentando sair de cena. Então; eles me tranquilizaram e insistentemente me convenceram a entar no carro novamente. A viagem foi tranquila, e ao chegarmos no trevo da BR 101; já nas proximidades da cidade de Garuva, no estado de Santa Catarina; agradeci aos dois ocupantes do fusca e comuniquei que aquele seria o meu destino. Sem ao menos me revelarem seus nomes e o real motivo daquela viagem; eles também me agradeceram. Um deles me alertou de forma veemente, sobre os perigos das estradas, pedindo para que eu tomasse cuidado. De posse da minha inseparável mochila, atravessei a rodovia, tomei um café numa lanchonete, enquantos esperava o ônibus para Itapoá.
O caminho até o paraiso; era feito atravéz de uma estrada de barro lamacenta, com ribanceiras abruptas e bastante sinuosas. Em dados momentos, o ônibus parecia uma formiga, dependurado naquelas trilhas.
O nosso Velho lobo do mar; havia se amasiado com uma senhora a qual, eu ainda não conhecia pessoalmente. Porém as referências a mim passadas eram as melhores e eu estava ansioso para conhecê-la também...

(Foto- BR 116)

O internato...


Era final de outubro, de mil novecentos e setenta e oito. Eu cheguei a capital paulista, levado pelo meu cunhado, esposo da minha irmã mais velha. Com uma pequena mala azul marinho, poucas roupas, um par de sapatos, um par de tênis e um par de chinelo havaianas...
Nós dessembarcamos neste terminal de ônibus, na praça da Bandeira, centro de São Paulo. Quando eu olhei esta cidade pela primeira vêz, tive a certeza que este seria o lugar onde eu viveria para sempre; a minha indentificação com esta megalópole agigantada, havia sido imediata. Daqui; embarcamos em um coletivo, que nos levaria ao extremo sul da cidade de São Paulo; onde finalmente se localizava o internato. Após sermos identificados na guarita de entrada, por guardas uniformizados, nós adentramos aquela enorme propriedade, que mais parecia um paraíso na terra. Alamedas ajardinadas, árvores e gramados imensos, prédios dos dois lados e lagos com peixes e plantas aquáticas; tudo me parecia fantástico e de extremo bom gosto. O som do piano, que vinha da capela do dormitório feminino, também me chamava a atenção; pois era como uma trilha sonora de algum filme épico. O cenário era acolhedor e aliviava a minha alma, de forma inusitada, como há muito eu não me sentia. Afinal; eu estava saindo do olho de um furacão emociaonal, e agora parecia que tudo se tornaria melhor novamente.
As moças e os rapazes que circulavam apressados; nos cumprimentavam cordialmente, enquanto decíamos a alameda em direção ao dormitório masculino. Todos pareciam felizes e bastante integrados ao lugar; mas embora eu gostasse do que via, estava meio assustado, pois tudo era novo para mim; e após uma breve despedida, o meu cunhado pegou o caminho de volta para Santos. A solidariedade e a cordialidade, sempre foram as maiores qualidades do esposo da minha irmã. Obrigado pela presteza, cunhado!
Agora; eu estaria por minha conta e risco, pela primeira vêz na vida. Era uma sensação nova e preocupante, mas não me parecia tão assustadora. Eu me sentia acompanhado e confotável, como se alguma força maior me encorajasse; e então comecei a tomar as primeiras providências para me instalar. Procurei a recepção do dormitório, guardei a minha mala e de posse dos meus documentos, fui orientado a procurar a secretaria daquela imensa instituição. De volta ao dormitório, recebi a chave do quarto número três, que tinha a janela lateral, voltada para um belo jardim e os fundos para uma grande quadra de esportes. As normas e horários que eu deveria cumprir rigorosamente, também me foram fornecidas em uma folha de papel timbrado. Tudo me parecia muito organizado e eu gostava disso! O almoço começaria ser servido a partir das onze horas e quarenta e cinco minutos; o refeitório era um prédio enorme com a fachada toda envidraçada e ficava ao lado do dormitório feminino, próximo da biblioteca, que na época já era informatizada. Havia também um conservatório musical, um anfiteatro, um dormitório de quatro andares, só para os alunos que cursavam faculdade, e localizava-se ao lado do nosso. Havia também uma gráfica, casas para professores, pastores, diretores e funcionários. Havia uma lavanderia de porte industrial, quadras de esportes para cada dormitório, uma pscina semi olimpica, uma igreja imensa e muito luxuosa; edifícios de faculdades, pomares, hortas, estábulos de bovinos e ovelhas, oficina, tratores, três estacionamentos, praças, correio, agencia bancária, um mini mercado, campo para futebol e pique nique, um canil e etc. Enfim; era um mundo a parte muito bem estruturado e tremendamente organizado. A noite, cães pastores e guardas cuidavam daquela imensa propriedade; e a circulação de pessoas, era permitida só até as vinte e duas horas.
Eu percebi que estudar ali, deveria ser muito dispendioso, e que aquela bolsa de estudos havia sido um grande premio. Obrigado, novamente mano!
Além da paz que eu havia conseguido; poderia me dedicar ao que mais gosto na vida, que é estudar.
Eu dividiria o quarto com mais dois garotos, que também eram bolsistas e assim como eu; trabalhariam meio período na instituição para pagar os estudos. Um deles trabalhava na horta, outro na cozinha e eu iria trabalahar a noite, na limpeza dos escritórios. Afinal; não era tão mal assim!
Aquele lugar; transboradava informação, cultura, disciplina e muita qualidade de vida, que para mim, seria vital e tremendamente agregador no futuro.
Tratei logo de me entrosar e fazer amizades, como sempre fôra do meu feitio; mas isto não me livrou de brigas oméricas, ném de castigos por travessuras inerentes á minha idade. Por várias vezes, nós éramos proibido de sair nos finais de semana, para visitar parentes, em virtude destas peraltices e molecagens. As vezes; também éramos castigados com trabalhos extras na horta, por matarmos aula em grupo, por nadar na pscina fora dos nossos horários, praticar esportes nas quadras ou perambular pela mata que cercava todo o internato. Logo dei conta de arrumar uma namorada, que também era interna lá; os nossos encontros eram sempre dissimulados; pois era proibido sequer, entrarmos no dormitório feminino, por causas óbvias! Frequentemente nos encontrávamos no refeitório, na biblioteca, durante os cultos, nas praças internas e apenas durante o dia; pois a instituição era protestante e um pouco rígida.
Durante os quatro anos que permaneci no internato; eu tive poucas visitas da família. Na maioria das vezes, era eu quem saia para visitá-los; já que as saídas nos fins de semana, eram permitidas. Também tinhamos quinze dias de férias no final do ano; e era quando eu aproveitava para visitar o meu pai e meus irmãos em Itapoá. Estas férias me aproximaram muito de meu velho lobo do mar; pois normalmente ficávamos conversando por horas a fio. Como era bom ouvir as histórias fantásticas, que o meu herói contava com muita maestria. Ele tinha uma forma peculiar de fazer as suas narrativas, enquanto tecia as suas infindáveis redes, com o seu inseparável cigaro de corda á boca e sua caneca de café bem forte. Felizmente; eu tive a honra de saber um pouco mais daquele ser tão maravilhoso; antes do seu desencarne súbito. Ele, assim como a nossa mãe, era unânimidade na vila de pescadores; uma figura extremamente carismática e sem muita paciência para futilidades. Porém; existe dois tipos de pessoas que ele não suportava: Os hipócritas e os fofoqueiros de plantão; e também não fazia a menor cerimônia em repudiá-los. A nossa mãe; era sempre mais complacente, o meu pai invariávelmente, ria dela por ser tão tolerante. Eles tinham um censo de humor e uma presença de espírito, que poucos conheciam!
Normalmente nos períodos de férias; eu colocava uma mochila nas costas, seguia para um posto da BR 116 sentido sul; e de carona em carona, chegava a Itapoá. Como era bacana poder aprender com o meu herói; eu sinto muita falta dos meus genitores terrenos, eles são quase uma lenda para mim. Quando eu ouvia alguma alegação depreciativa, proferida por alguns dos meus irmãos mais velhos, em relação a eles; era como se estivessem me agredindo; e não foram poucas as asneira que eu ouvi. Sempre engolia calado, pois eu sabia que por ser o filho caçula; também não conhecia toda a trajetória familiar. Os poucos anos que convivi com os meus pais, foram salutares, eu não poderia adotar uma postura diferente; apenas pela verbalização dos outros. É vital que honremos os seres que foram responsáveis pela nossa existência no planeta. Pois como eu sempre digo; quem não consegue ser bom filho; provávelmente, terá dificuldade em ser um cidadão pró-ativo ou agregador socialmente! Os meus pais, foram visívelmente amados e reconhecidos, pelos mais atentos e humanizados que os cercaram. Mesmo hoje; quando visito os lugares por onde eles estiveram; tenho a certeza de que eles foram pessoas boas.
Os movimentos acusatórios e rançosos, são extremamente nocivos e não ajudam em nada. O lamento só é bom, quando serve para aliviar a alma, não é saudável e não deve servir como ferramenta de vitimismo. Os conselhos dos meus pais, são pérolas que eu guardo comigo e que muito me auxiliam.
Eu prefiro desconfiar dos que não conseguem ser gratos, dos que fazem sempre o papel da vítima, ou dos que cobram mais do que consegue pagar. Pois estes; passarão pela existência terrena, procurando culpados para justificar as suas vidas vazias, porque são viciados na conduta difamatória; que invariavelmente; faz mais mal a quem as pratica. Assim; estes acabam caindo no discrédito generalizado, que vai corroer as suas almas e fatalmente, os perturbará pela eternidade; se estes não adotarem uma conduta de auto preservação humanizada, e honestamente espiritualizada...
Voltando aos fatos novamente...
Havia quatro anos, que eu adentrara pela primeira vêz naquela instituição. O aprendizado promovido para além das salas de aula, a socialização e a missigenação; teriam papeis decisivos, não só na minha conduta de vida, como também na blindagem do meu espírito dalí por diante. Após quatro longos anos; aquele internato já não me cabia mais, e a vida fora de lá, me parecia a melhor opção. Eu sabia que compraria uma enorme briga com o meu irmão, mas era necessário criar asas novamente e o mundo acenava com essa possibilidade.
Mesmo contra a vontade do meu irmão querido; eu tomei novamente as rédias da minha vida, coloquei nas costas a minha mochila e saí do internato, sem a menor pretenção de retornar.
Mesmo porque; o horizonte sempre me fascinou, é uma forma fantástica de aprendizado; e o livre arbítrio, é um instrumento delegado pela própria divindade...
Isto é uma constatação, não uma alegação!


(Foto Praça da Bandeira centro de São Paulo -by Lee Bento)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Perdido no meio da confusão...


A comoção pelo desencarne da nossa mãe, havia gerado uma espécie de turbulência enorme nas nossas vidas, e também mudaria definitivamente o rumo da minha existência...
O meu pai e os meus três irmãos do meio, haviam voltado para Itapoá, o nosso irmão mais velho também havia retomado a sua rotina paulistana; e eu passei a morrar com a nossa irmã mais velha, com meu cunhado e três sobrinhos. Nós morávamos no décimo andar de um desses edifícios que aparecem em primeiro plano nesta fotografia.
A proximidade com o mar amenizava a saudade da minha querida Itapoá, mas não eliminava a dor deixada pela perda do meu anjo bom. Tudo era extremamente novo, eu nunca havia morado num prédio de apartamentos, antes. Não estava habituado aquela forma de cultura tão diferente, também não era filho daquela família; embora contasse com o carinho e com os cuidados da minha irmã mais velha. Eu sabia que havia virado uma espécie de batata quente, naquela confusão e que ninguém tinha culpa por isso. As regras de um apartamento na cidade, eram muito diferentes da vida que eu estava acostumado em Itapoá. A saudade que eu sentia dos meus irmãos e do meu pai, e a dor pela perda da minha companheira fiél; era quase sempre convertida em choro solitário. Por várias vezes, me peguei debruçado no para peito da janela do décimo andar, pensando que poderia acabar com aquela agonia se me atirasse dali. Mas nestes momentos solitários de dor, a imagem do meu querido pai, me vinha a mente e uma força salvadora me afastava daquele abismo físico e espiritual. Afinal; eu estaria sendo muito egoísta se cometesse tal ato, pois já bastava para ele a dor da perda da nossa mãe querida. As régras na casa da minha irmã mais velha, eram rígidas no sentido da educação e impóstas de uma forma, que eu não sabia lidar direito. Mas isto também me tornaria mais forte no futuro. Obrigado por isso mana querida. As pessoas não compartilhavam a minha dor, justamente por eu nunca ter deixado que elas percebessem. Afinal; cada um tem os seus próprios dilemas e eu não pretendia ser um problema para quem havia me acolhido; e também nunca fiz o papel de coitadinho ou vítima do destino. O meu corpo era frágil, mas o meu espírito é uma parede inviolável. Até hoje, sou meio fake emocionalmente, para os meus parentes; eles me conhecem muito na superficialidade e não tem muita noção de quem sou verdadeiramente. Me sinto muito distante da realidade familiar e penso que sempre foi, e continuará sendo assim pela eternidade. Os ataques a mim desferidos, nunca ultrapassam a realidade física e jamais atingirão a minha alma; pois este será o tesouro eterno que levarei comigo para sempre. O meu herói costumava dizer, que os outros podem tirar de nós, apenas o que for material e falível; mas o que agregarmos de bom ao nosso espírito, será eternamente nosso!
As minhas questões maiores eu trato na terapia, e provavelmente os meus parentes saberão um pouco mais quem sou, a partir destes escritos. Na maioria das vezes, a verbalização não resolve muito; a não ser que seja feita objetivamente, para um profissional capacitado para isto. As horas gastas com terapia, a fé em Deus, sem a necessidade de templos ou dógmas absurdos é o que me coloca no prumo da vida; e me faz conviver melhor com a minha solidão interna. Eu costumo dizer; que todos deveríamos valorizar a terapia, assim como o aprendizado nas escolas; pois o mundo seria sensivelmente melhor, se conhecêssemos um pouco mais de nós mesmos. Nós nos tornamos melhores socialmente; justamente quando aprendemos a lidar com os nossos próprios conflitos e frustrações. A terapia deveria ser mais acessível econômicamente, pois é uma questão de saúde pública urgente; em virtude de que as pessoas, estão cada vêz mais fóbicas socialmente! Enfim; eu não estou aqui para apliacar fórmulas; mesmo porque, as coisas não funcionam da mesma forma para todas as pessoas.
Voltando ao passado...
O meu irmão mais velho, pagou um ano dos meus estudos em uma escola protestante em Santos, a minha irmã e meu cunhado custearam a minha estadia na casa deles por mais um ano; e como as interferências muiti laterais familiares, na condução da minha vida, já começava a dar sinais de corrosão, em virtude do velho dilema. Quando todo mundo colabora; também todo mundo tem direito a dar opinião; e a minha vontade naquele cenário, estava relegada a segundo plano. Em virtude destes conflitos, eu sofri agressões descabidas e as marcas ultrapassaram em muito, as feridas deixadas no meu corpo. As agressões físicas e morais explícitas; vinham justamente de quem deveria me proteger. Afinal; o que eu havia feito de tão ruim assim? Hoje sei que só os mais fortes suportam esse tipo de flagelo; e o meu espírito sempre será inviolável. Pois o máximo que os meus algozes levarão de mim, será a carne fétida e perecível que findará um dia. Isso é um fato, e não meramente uma alegação infundada...
Com aquele infindável jogo de poder na condução da minha suposta educação, eu me tornei um mero espectador do meu próprio destino; e no desenrolar das coisas, o meu irmão mais velho, decidiu que eu deveria ir para um internato na cidade de São Paulo, afim de me dedicar aos estudos. Por ele ter influência com a comunidade protestante a qual pertencia, conseguiu uma bolsa de estudos em um colégio interno, no extremo sul da capital paulista. Eu não estava carente de normas ou régras absurdas, eu estava emocionalmente perdido, precisando de colo, afeto, carinho, amor e compreensão. Mas isso não parecia visível, aos olhos dos que me rodiavam naquele momento. Hoje; eu percebo que ir para o internato, foi a melhor coisa que eles fezeram por mim; não por terem me tirado da casa da minha querida irmã, pois eu estava bem lá; mas por de certa forma, eu poder me apropriar da minha vida, sem tantas interferências familares. Era tanta informação que eu não estava mais dando conta, sabe? Coisa de familia numerosa, mesmo!
Obrigado de coração, mano querido por esta atitude; embora a vida tenha nos afastado quase que definitivamente, por motivos alheios á nossa vontade; eu serei eternamente grato a você! Nós somos filhos do mesmo pai e da mesma mãe; mas temos posturas completamente antagônicas diante da vida e da forma que a conduzimos. Afinal; os seres humanos são meramente similares e cada ser é único, a partir das suas próprias questões ou convicções.
Foi exatamente; a vida sacrificada no internato e distante de todos, que teve papel significativo, no meu processo de formação e que me prepararia, para as adversidades que ainda estavam por vir...
(Foto meu vôo de Paraglide by Lee Bento)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Entre o ceu e a terra...


Era quinze de novembro, de mil novecentos e setenta e seis; dia de eleições gerais no Brasil, e como estávamos ainda na cidade de Santos, acompanhamos os parentes que deveriam votar, e também a nossa mãe que justifiaria o seu voto.
Ainda me lembro, que em virtude do numeroso batalhão familiar; alguns adultos se revezavam no cuidado dos pequenos, enquanto outros votavam. Como é bom ter famila numerosa, mesmo com todos os problemas que isso tende a gerar. Na realidade, as confusões são amenizadas pelas infindáveis diversões em grupo.
O dia parecia de festa para nós os pequenos; e como de praxe, nos reunimos para saborear o delicioso e sempre festeiro, macarrão com frango da nossa irmã mais nova. Ainda hoje sinto a falta daquele macarrão inigualável. Obrigado mana querida, por tão saborosa lembrança...
Os dias se seguiram sem nenhum outro acontecimento importante, a não ser os cuidados com a saúde da nossa heroina.
Tudo parecia estar bem, mas pela manhã do dia desenove de novembro, portanto; quatro dias após ter cumprido o seu dever cívico e justificado seu voto nas urnas; ela acordara com dores abdominais. Então, a nossa irmã mais nova a levou para o hopital e ficou com ela até a internação, que se sucedeu no fim da tarde. Segundo a minha irmã, ela estaria bem e aparentemente sem maiores complicações.
Na manhã do dia vinte logo cedo, quando a nossa irmã voltara á Santa Casa de Santos, para levar roupas, material de higiene pessoal e obter noticias sobre a saúde da nossa mãe; deparou-se com a cruel realidade. O nosso anjo bom, não havia resistido e desencarnou momentos antes...
Eu; ainda sem saber do acontecido, havia notado uma circulação meio nervosa, com o entra e sai de parentes. Parece que quanto mais eles tentavam disfarçar o fato; maior era a evidência de que algo estava errado; com os meus apelos constantes para saber a veradade, uma das minhas sobrinhas, acabou por me falar o que eu já suspeitava.
Parecia um pesadelo inacreditável; era como se eu houvesse sido tirado do plano carnal. Eu que não admitia a possibilidade do distanciamento terreno, agora me deparava com a dor do distanciamento permanente do meu anjo lindo. O espírito bondoso, leve, caridoso e sútil da minha heroina, não estaria mais presente entre nós; e como eu poderia viver sem aquela alma bondosa, a me facilitar a existência?
O meu choro fôra calado, os meus olhos ficaram estáticos e os meus ouvidos ensurdecidos; tudo parecia surreal; até a minha dor, parecia ter se transformada em uma espécie de torpor permanentante. Eu não me lembro de muitas coisas; até o inicio da noite, quando fui resgatado de um canto da parte superior da casa, pela minha irmã mais nova, dizendo que eu não estava só e que ainda éramos uma familia. Não lembro do velório, do cerimonial do enterro, não lembro dos dias que se seguiram...
Agora eu sei que a espiritualidade, me havia protegido de tamanha dor, que o espirito iluminado do meu anjo bom, estivera ao meu lado naqueles dias difíceis e que aquela morfina espiritual era provedencial e necessária.

Eu lembro que em Itapóa; nós tínhamos um papagaio que aprendeu a me imitar, chamando: "mãeeeeee..." ; essa era a primeira palavra, que eu costumeiramente pronunciava ao acordar; ela de pronto respondia, no sentido de me tranquilizar, com a sua voz calma e suave de mãe cuidadora, zelosa e dedicada...

Enfim; alguém havia se apressado, para enviar um anuncio atravéz da estação de radio de São Francisco do Sul; pois não tinhamos qualquer outra forma de contato com Itapoá. O nosso querido pai e os dois irmãos do meio, foram localizados, e em algumas horas chegariam a Santos; o nosso irmão mais velho, já morava na cidade de São Paulo e também não demorou muito a chegar.
O nosso universo familiar, transformara-se numa ebulição sem prescedentes até então.
Essa foi a nossa primeira grande tragédia que eu presenciara; mas não seria a única; pois a nossa história ainda teria caminhos muito espinhosos pela frente...

(Foto by net)



quinta-feira, 25 de junho de 2009

A solidão compartilhada na cidade de Santos...


Em virtude dos problemas de saúde da nossa mãe; eu que até então era filho amado e foco principal das atenções familiares, havia me tornado meio esquecido no meio de tamanha confusão...

Os meus irmãos e irmãs, tinham suas próprias urgências; eu era só mais uma criança meio perdida no entorno. Embora as minhas irmãs fossem carinhosas, generosas e atentas; não conseguiam dar conta da enorme demanda familiar, pois também tinham uma prole numerosa. Nós contávamos, com o auxilio dos fiéis e sempre solícitos amigos; tanto em Santos quanto em Itapoá.
O diagnóstico sobre a saúde da nossa heroina, não era nada favorável e ela teria que ser operada logo após os exames. O doutor Nedo Romitti; médico da Santa Casa de Santos, era um ótimo cirurgião gástrico, extremamente humanizado e cuidaria especialmente do nosso anjo bom...
A operação havia sido um sucesso, a minha doce companheira estava em franca recuperação e recebera alta hospitalar após uma semana. Mesmo convalescente e debilitada, em virtude da cirurgia que fora bastante invasiva; a paz e o sorriso franco que lhe era peculiar, não desaparecera daquela alma generosa que habitava o seu frágil corpo.
A vóz calma e gentil da minha genitora, nunca abandonou o meu espírito; é na verdade, um bálsamo revigorante na minha turbulenta caminhada terrena. Os meus pais, são o meu maior motivo de orgulho nesta existência, eu devo tudo o que sou hoje, a estes seres tão especiais. Não digo isto apenas por ser filho honrado, mas por perceber o quanto eles são queridos neste planeta, e provavelmente; estimados no plano espiritual. Tenho uma certeza quase visceral de reencontrá-los um dia e poder secar as infindáveis lágrimas, promovidas pela saudade que hoje fere o meu ser. Espero ser merecedor deste amor e digno o suficiente, para poder retribuir em igual escala.
Era mês de novembro, de mil novecentos e setenta e seis e as eleições aproximavam-se ; como a nossa heroina parecia estar reestabelecida, manifestava o desejo cívico de votar. Porém; todos os cuidados deveriam ser tomados, caso nós voltássemos á Itapoá, mas o melhor a ser feito, seria a justificativa do seu voto na cidade de Santos, para que fosse evitado qualquer complicação no quadro da saúde da nossa mãe.
Me lembro que muitos amigos e familiares, a visitavam na casa da nossa irmã e o carinho dispensado á nossa genitora, era tocante e explicitamente generoso. Ela dispertava nas pessoas, um sentimento muito superior á solidariedade; era uma forma curiosa de afeto das pessoas para com ela, que me tocava visivelmente. Por vezes, eu me aproximava dela em silêncio, como forma de oração, admiração e respeito; sem verdadeiramente, me ater a realidade daqueles dias...
A postura educada, generosa e a sutil leveza do espírito que habitava aquele frágil corpo; parecia transboradar a existência simples, sem qualquer pretenção do envaidecimento natural e humano.
A minha genitora, tinha a solidariedade quase impressa no seu ser; a grandeza das suas ações, ficava evidente, mesmo sem que ela ostentasse qualquer arroubo pretencioso. Parecia que ela tinha a exata noção do seu valor, sem a necessidade da verbalização ou averbação alheia.
Eu me sentia um espectador de tudo á minha volta; ainda vejo aquele cenário e quase posso ouvir as vozes das pessoas ao nosso redor. O meu olhar grato e meio perdido, se confundia com o cenário e por vezes; eu me afastava para orar e chorar sozinho pelos cantos, sem que alguém pudesse perceber a angústia que dominava a minha alma. Era como uma forma de torpor, que me abstraia daquela realidade meio insólita.
Por várias vezes, a observei me olhando calma e ternamente; como se orasse por mim, em silêncio. Nós éramos culplices sem que os outros sequer percebessem.
Nós jamais nos afastávamos por muito tempo, somos mais que mãe e filho, somos espíritos amigos pela eternidade, somos cuidadores eternos e recíprocos.
Eu lembro que certa vêz em Itapoá; no dia do meu aniversário, ela havia pedido uma música por carta, para uma estação de rádio em São Francisco do Sul; e nós ouvimos juntos ao pé do rádio. Mesmo sendo nos meus primeiros anos de vida, esta cena jamais me saiu da mente.
É gratificante me sentir um filho verdadeiramente amado, por uma alma tão especial quanta a dela.
Hoje percebo a maldade dos pais, que jogam os seus filhos pelas janelas dos apartamentos, que os arremessam contra o parabisa dos automóveis, que os quiemam com cigarro, que promovem torturas das mais variadas e cruéis.
Onde estará o Deus existente na raça humana? Será que a nossa sociedade esta se perdendo nela mesma? Ou será que a individualidade mesquinha estará corropendo a nossa alma! É deplorável perceber o mudo sendo degradando, justamente por quem deveria zelar por ele...

(Foto da cidade de Santos by net)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O Caminho para a cidade de Santos...

A nossa irmã mais velha e seu esposo, ficaram em Itapoá; assim como o nosso herói e os nossos dois irmãos do meio...

Minha mãe, minha irmã mais nova e eu; fomos levados de automóvel por um bondoso amigo da nossa familia, até a cidade de Garuva SC...

Meses mais tarde, este querido amigo foi assassinado a tiros covardemente na cidade de Garuva, por motivos políticos. Isso reafirma a tese de que um covarde, sempre mata um rei. E o faz, movido pela inveja nefasta, que corrompe o espírito do agressor. Em virtude disso, ele se torna digno de pena e invariávelmente; levará no seu próprio ser, as ferídas causada pela maldade que domina as almas confusas.

Voltando a nossa odisséia...
Minha mãe, minha irmã e eu descemos do carro ás pressas, meio sem tempo para agradecer e nos despedir de forma mais cordial, do nosso generoso amigo; pois o ônibus já estava de partida para Curitiba e de lá seguiríamos para Santos, no início da noite.
Essa odisséia se passou como um sonho distante e meio confuso; eu lembro vagamente da nossa chegada á Santos na manhã seguinte. Ainda consigo visualizar a figura da nossa heroina, em seu vestido florido em bege e creme, com bordas marrons, que o nosso pai havia comprado dias antes para ela. A figura meiga e frágil da nossa genitora andava com vagar e fadigada, em virtude do cansaço pela longa viagem e também, pela debilidade causada pela doença que a acometia.
De pronto, o meu cunhado que sempre fora solícito nos acolheu com o carinho e atenção que lhe era peculiar. Instaldos e alimentados, agora era chegada a hora de tomar as providências para o tratamento, pois a urgência era notória...
Os rumos das ações na intenção dos cuidados com a saúde dela, era discutido em familia e frequentemente, eu percebia o nervosismo explícito que nos rondava cotidianamente.
Eu pouco entendia destes trâmites e me ocupava apenas em brincar, sem me ater á gravidade daqueles dias atribulados.
Enfim; a internação e os exames haviam sido providenciados a tempo, e tudo parecia correr bem. Porém; as mudanças nos rumos das nossas vidas estavam apenas no começo; o futuro ainda desconhecido se apresentaria mais turbulento e implacável, para todos nós...


(Foto Rodovia BR 116 by net)

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Estrada e pontes...

É desse ponto mais alto, que os pescadores espiavam os cardumes; no intúito de visualiza-los e direcionar as redes de forma mais acertiva; em virtude disso esta pedra leva o nome de Pedra da espia.
Nos dias ensolarados de verão, com a maré cheia e água clara; a nossa trupe enfileirava-se sobre aquela pedra e um a um; nós saltávamos para o mar, como golfinhos na direção das ondas.
Essa era uma diversão que nos custava inúmeras surras; pois o nosso pai não perdoava travessuras; principalmente com riscos eminentes!
Havia vazantes de maré, que transformavam este cenário em terra firme. Eu gostaria de ter fotografado; também não sei se este fenômeno acontece ainda hoje. Afinal; a invasão humana, vem promovendo alterações climáticas nos quatro cantos do mundo. É gratificante poder relembrar os bons momentos e ter morado neste pedacinho do paraíso.
No duelo entre a preservação e o desenvolvimento, era previsível quem sairia perdendo. Porém; a vila de pescadores era bastante valente e respeitada. Os pescadores lutavam como podiam, para defender o território que por direito, lhes pertencia. As tentativas de invasão, vinham tanto por terra qunto pelo mar. Para além do dispóstos a lotear as terras; também existiam os grandes barcos de pesca que cruzavam a região e levavam absolutamente tudo o que encontavam no mar. Inclusive por várias vezes; redes eram levadas ou extremamente danificadas, por aquele tipo de pesca predatória. Como não havia fisalização efetiva, os próprios pescadores encarregavam-se disso e invariávelmente; intimidavam verbalmente a embarcação invasora. Normalmente não passava disso!
A pesca artezanal era bastante afetada por estes barcos e o período do Defeso, ainda não existia legalmente.
Já em terra firme; tratores e máquinas niveladoras, surgiram do mato como grandes dinossauros; homens e caminhões se apressavam na construção de pontes de madeira; o curso do rio que divisava o nosso terreno, foi desviado, o Campo da onça foi cortado ao meio e as alterações influenciaram objetivamente; na dizimação da fauna e da flora local... triste isso!
Novas casas foram construidas quase á beira mar. Porém; a população convencionou não permitir edifícios na orla marítima; esta foi uma conquistas dos valorosos habitantes nativos e novos moradores do local.

A minha irmã mais velha, mudou-se de Santos para Itapoá com o meu cunhado e construiram uma pequena casa no nosso terreno. Eles deram suporte afetivo e financeiro aos meus heróis, que já estavam bem maltratados pela vida difícil que levavam. Os remédios que a minha mãe tomava para bronquite, tinham efeitos colaterais danosos e a debilidade da saúde dela, ficava cada dia mais preocupante...
Numa tarde qualquer, a melhor amiga da minha mãe me chamara para uma conversa séria. A dona Marina me comunicou, que a nossa heroina deveria procurar recursos para tratar-se e o destino mais seguro, seria a cidade de Santos; pois uma das nossas irmãs morava lá. O nosso irmão mais velho, havia deixado o internato, ele já morava em São Paulo nesta ocasião e esta união de esforços seria valiosa no tratamento dela.
Todos pareciam estar de acordo, a ação me parecia urgente e pelo que percebo hoje; eu fui o ultimo a ser comunicado.
Diante da minha insistência em fazer companhia para a minha mãe na viagem; fui incluido no pacote de ultima hora. Eu não admitia ficar distante dela, em momento algum; imagina naquela circunstância?! Quando ela tinha que ir para cidades próximas e não me levava; eu ficava imaginando que se algo acontecesse e eu não estivesse por perto; quem iria socorre-la? A minha ligação com os meus genitores era quase visceral e de pertencimento espiritual recíproco; algo que só se pode sentir, mas de dificil verbalização. Eu sinto verdadeiramente que somos mais que parentes carnais.
Enfim; viajamos para Santos em busca de tratamento para a nossa mãe e logo ela começaria a fazer os primeiros exames...


(Foto- Primeira pedra Itapoá-by Lee Bento)

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A nossa matilha começa a se dispersar...



A saúde dos meus pais, dava sinais claros de fragilidade.






O nosso Guerreiro; ainda tinha sequélas deixadas por uma cirurgia, em virtude de uma úlcera no estômago e também pelas dificuldades daqueles anos difíceis no Brasil.
A nossa Heroina; se mostrava fragilizada e bastante envelhecida, por motivos correlatos à nossa história.
Por ser filho temporão, sou tio de sobrinhos mais velhos que eu; em decorrência disso, tenho uma visão diferente de alguns dos meus irmãos, sobre os meus pais.
Eu acredito que os meus irmãos e irmãs, tiveram uma vida mais atribulada que a minha; alguns tem as suas próprias razões para cultivar os seus ranços, que provavelmente; não foram resolvidos a tempo.
Eu venho tentando não me contaminar com ransos alheios; mas confesso, que este não é um exercício fácil.

O nosso irmão mais velho, já estudava em um colégio interno; outro irmão, passou a morar na cidade de Santos, com uma das nossas irmãs e sua família.
Este irmão querido, nasceu com uma luz especial; ele era o mais calmo e o mais moreno dos meninos. No futuro, ele nos impressionaria significativamente!
Porém; esta é uma história que eu devo contar mais tarde...

Nós; os três filhos restantes, ficamos morando no paraiso com os nossos pais e também contávamos com a solidariedade local.
É notável, as relações que uma vila de pescadores desenvolve e normalmente; os pescadores são muito solidários entre sí.
Eu lembro de tempestades com ventos e chuva fortes; que as vezes duravam meses, esse período era chamado de lestada e a solidariedade era tremendamente vital; em tais circunstâncias.
Dias difíceis aqueles; canoas tripuladas por amigos, irmãos ou parentes; afundavam ás nossas vistas, em virtude do mar revolto. Porém; eu não lembro de pescadores mortos no mar; ao contrário de alguns turistas incautos.
Com muita frequência; pessoas eram salvas por pescadores, que se lançavam ao mar em busca de vidas.
O motivo mais comum destes afogamentos, se dava por conta de uma boia, bola ou qualquer brinquedo infantil; que normalmente são levados pelos ventos.
Alguns turístas desavizados, não levavam em conta os riscos comuns; como buracos, correntezas e partiam mar a dentro, em busca destes brinquedos.
Por vezes; algumas tagédias se sucederam, sem que alguém pudesse intervir com sucesso. As cenas de desespero, das familias atingidas por essas tragédias, são tristes e visualmente marcantes; principalmente quando se é criança.

Certa vêz, o meu pai passou a noite velando um corpo á beira mar; o qual encontrara de madrugada, enquanto pescava com a sua inseparável Tarrafa.
Nesta ocasião; eu lembro dele chegando em casa, no meio da madrugada, comunicando ter encontrado o corpo de um homem, que havia se afogado na tarde anterior.
Sem se fazer de rogado; o meu Herói trocou a roupa molhada, tomou o seu costumeiro café; e de posse de uma rede que ele mesmo tecia, do seu inseparável fumo de carda, de um banquinho e uma lamparina; ele partiu sózinho para velar o corpo à beira mar, até o dia raiar.
Eu confesso que fiquei bastante impressionado com a atitude do meu pai; ele parecia em estado de oração silenciosa, enquanto se preparava para aquele velório solitário.
Hoje; eu percebo aquela atitude, como louvável e extremamente humanizada. Para mim, foi mais que uma lição de respeito ao próximo; foi uma atitude respeitosa para com a famila daquele homem, que havia sido levado pelo mar de forma tão trágica.
Eu percebia que para o meu pai; a existência da divindade, estava para além dos estereótipos religiosos.
Obrigado pelo belo exemplo; véio...

Nos anos sessenta não havia sequer, uma estrada no paraíso. Automóveis, ônibus e caminhões, usavam uma estrada de terra, que cortava uma serrinha lamacenta e extremamente perigosa. Depois; ainda havia mais quatro quilômetros pela praia, até nós.
O paraíso ficava realmente distante das futilidades urbanas; mas bastante sofrível no quesito inclusão social...

Eu penso ter uma visão mais romantizada dos fatos; justamente pela minha tenra idade e acredito que os caçulas, são realmente mais protegidos. Até por uma questão conjuntural, mesmo!
A história dos nossos genitores, lembra a dos salmões. Eles vencem as corredeiras, depositam e fecundam os seus ovos; depois morrem, cumprindo assim a sua missão tão nobre, no milagre da renovação da vida.
Os meus pais nunca limitaram o meu aprendizado, nem usavam histórias hipóciritas para me educar. Eu aprendi a ler, folheando gibis, comecei a ganhar livros infantis; mais tarde, pude ler a coleção do escritor Julho Werner, Seleções e por aí foi.
Embora eu tivesse dificuldade para ler em público, tinha facilidade para interpretar e assimilar textos. Esta facilidade com as ciências humanas, ajudou na minha formação acadêmica e nas escolhas que eu venho fazendo ao longo da vida.
Logo que eu pude decidir por conta própria; passei a cuidar sozinho das minhas questões econômicas e nunca deleguei esta função a ninguém!
Não gosto de acumular dívidas, não tenho pendências jurídicas e devo poucos favores.Tudo na minha vida foi cobrado, tudo no meu universo teve preço super faturado e talvez graças a isso; eu não tenha dívidas morais ou econômicas.
É vital ser grato, ter a alma limpa e o nosso espírito deve ser inviolável; pois o máximo que os nossos algozes terão, será a nossa carne; que se por acaso for de alguma valia...

As coisas ficavam mais difíceis para mim; quando o meu irmão mais velho, vinha passar as férias conosco. Ele perturbava os meus pais, alegando que eu era extremante livre no Paraíso.
Ora bolas; eu era uma criança amada pelos meus pais, de bem com a vida e estava integralizado no meu habitat. As neurozes não me pertenciam, mas invariávelmente, esta era a minha temporada de surras; eu dava graças a Deus, quando as férias dele terminavam e ele voltava para o internato...
Eu não me importava de apanhar pelas travessuras que fazia; mas odiava quando apanhava sem motivos, ou por uma pseudo educação e sem propósito, e que sempre partiam de alegações infundadas, do meu irmão mais velho. O papel do chato naquela ocasião, coube a ele e isto é coisa de irmão mais velho, mesmo!
Eu penso; que se tivesse um irmão mais novo; eu o protegeria e seria amigo dele...

A realidade se apresentava pouco solidária, já nos meus primeiros anos de vida e parecia me preparar para o futuro...

(Foto- Rio Saí mirim SC - by Lee Bento)

quarta-feira, 13 de maio de 2009

A vida em profusão...

Em várias ocasiões; nós abrigamos turistas acampados em barracas, que as vezes eram apanhados por alguma tempestade

Algumas familias as quais nós socorríamos; tornavam-se mais próximas e vinham com frequência, compartilhar as delicias do paraíso conosco. As nossas irmãs casadas, também traziam suas ramificações familiares; eram cunhados, filhos, concunhados, sogros, enfim. As vezes também traziam problemas, como toda família normal. Mas invariávelmente; estes encontros promoviam confraternizações, regadas por boas histórias, rizos rasgados e passeios divertidos por Itapoá.
Para além do nosso endereço; havia lugares fantásticos como: O Campo da Onça; que era um descampado natural, composto de pequenos arbustos; uma espécie de savana. A população mais antiga, afirmava existir onças ali; eu nunca tive o prazer deste encontro. Existia também o famoso Samambaial; um belo sítio de areias brancas como a neve, que localisava-se á margem sul, do caldaloso rio Saí Mirim. Havia lá ainda, um engenho para manufatura de farinha de mandióca.
A dois ou tres quilômetros da costa, há uma ilha com uma praia interna, que é convite fácil, para um ótimo mergulho.
O nosso pacote familiar, vinha completo para viagem; eu imagino que os nossos pais, entregavam nas mãos de Deus e também desaceleravam; ou do contrário, teriam ficado loucos. Mas de certa forma, todos acabavam cuidado de todos; pois afinal, todos eram pais, mães e irmãos.
Nós tinhamos amigos, oriundos de várias partes do país e de diferentes classes socio culturais. Os meus pais tinham um código próprio de conduta, para a nossa sociedade familiar.
Não importava para eles; o grau de instrução das pessoas, a cor da pele, a condição econômica, a vertente religiosa e nem mesmo a correlação sanguínea.
É óbvio, que diante das nossas dificuldades econômicas; não poderiamos fazer mais do que cabia á nossa prole. Porém; a solidariedade era fato cumum entre nós.
Em contra partida; se a conduta ética não fosse respeitada, o indivíduo não seria bem vindo e era informado disso. Os meus pais repudiavam os difamadores, os preconceituosos, os autocentrados, arrogantes, provincianos, beberrões, arroaceiros ou gente com vibe ruim.
Por ser bastante objetivo e lider nato; cabia ao meu pai o papel da disciplina mais rígida. Ele era frequentemente; acusado de ser bravo, rude, pouco tolerante e coisas desse tipo. Mas também, não ligava muito para o "Zé Povinho"; como ele mesmo se referia às hienas de plantão.
Eu fui educado pela cartilha dos meus pais; aprendi a valorizar a forma de atuação deles, na minha formação e serei eternamente grato por isso.

Alguns destes ditos populares; são pérolas e me fazem lembrar os meus generosos genitores...

-Quem costuma usar a acusação, como mecanismo de defesa; normalmente já possui as respostas prontas...

-O indivíduo que sempre faz o papel da vítima; provavelmente seja vítima dele mesmo...

-Aquele que não se esforça para ser bom filho; é também pouco provável, que se torne um bom cidadão...

-Quem quizer bem feito, que o faça; quem não o quizer, que mande fazer...

-Normalmente; quem tem dificuldade para delegar ou colaborar espontâneamente, tem facilidade para a cobrança exessiva...

-Quem não tem a capacidade de apludir as vitórias alheias; fatalmente não terá com quem dividir a sua própria vitória...

Estes ditos parecem simples; mas pô-los em prática, torna-se extremamente trabalhoso; se faz nescessário o exercício constante de distanciamento, de auto análise e de reflexão. Pois é saudável, evitarmos posturas emocionalizadas ou rançosas.

Será que a vida é tão complicada assim? Ou nós devemos adequar melhor, as nossas habilidades, no sentido de poder lidar de forma menos ruidosa, com as novas questões, que frequentemente se apresentam?
Eu penso que estas questões analítico filosóficas; não devem ocupar muito espaço aqui, neste momento. Mas penso que caiba reflexão sim; pois quem não se questiona; também tem dificuldade para uma convivência social mais saudável...

Houve dias; em que o nosso terreno parecia uma colônia de férias, daquelas dos filmes teens da Sessão da Tarde, sabe?
Aquela missigenação, nos agregou bastante no sentido positivo...

As nossas alegrias infantis, os sotaques variados, que por vezes se confundiam; era para mim tão saboroso, quanto uma torta de limão!
Mesmo não viajando nas férias; nós desfrutávamos as nossas, praticamente o ano todo; pois sempre tinhamos visitas agradáveis no Paríso.
Hoje; eu percebo que as famílias que nós hospedávamos, gratuita e prazeirosamente, durante as férias; além de valorizarem a alegria e descontração, também primavam por educação e respeito mútuo.
Isto de certa forma, consolidava a nossa rede social e nos ligava ao mundo externo.
Afinal; a nossa familia se ramifica por boa parte deste país; inclusive alguns queridos irmãos, nasceram no estado de São Paulo. Mais própriamente na cidade de Santos, no litoral sul do estado. As nossas duas irmãs haviam nascido em Penha, Santa Catarina e eu em Itajái.


Coisa de família meio nômade; sabe?

(Foto by Lee Bento)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Tempestade violenta...

A nossa pequena casa de madeira; tinha quatro cômodos e uma vida social em movimento.



O nosso ninho, localizava-se no meio do terreno, protegido dos ventos marinhos, por uma seringueira enorme, um bambuzal, abacateiros, goiabeiras e uma infinidade de outras árvores...
Além da nossa numerosa familia; começaram a frequentar também a nossa casa, as garotas pretendentes ou namoradas dos meus irmãos. Junto vinham amigos, primos e primas; enfim...
Era tanta vida em ebulição, que não há tempo para narrar aqui. Eram brigas, piadas, rizadas, namoros, surras, travessuras... E o futebol da tarde á beira mar? Esse por si mesmo, já daria um livro!
Quantas histórias que a vida se encarregou de contar; assim como faziam os meus queridos genitores, normalmente em noites frias...
O meu pai, foi um memorável narrador das suas próprias histórias; eu percebo hoje, que herdei dele essa capacidade.
Como era bom passar férias em Itapoá, ouvir as belas histórias do meu velho...
Enquanto ele tecia as redes e fumava o seu inseparável fumo de carda; nós tomávamos café á luz da lamparina, nos deliciando com aquela profusão de boas histórias...
Há uma música que me leva ao meu Herói de carne e osso; ela diz assim: "...naquela mesa esta faltando ele; e a suadade dele esta doendo em mim! " . Essa música retrata o amor e a gratidão de um filho, por seu pai. Inclusive; me fez chorar por vezes...

Enfim; a vida é aprendizado contínuo e gradativo; pois quanto mais eu penso que sei, mais percebo o tamanho da minha ignorância...

Num dia de sol forte, os pescadores haviam notado um enorme cardume, muito perto da costa. Era uma quantidade bastante significativa de peixes médios; e uma variedade de espécies curiosa, também. Eram Betaras, Pampos, Bagres e etc. Me recordo, que após os lanços; as redes vinham repletas destes peixes e várias pessoas foram ajudar; pois era uma quantidade bem generosa de pescado. Parecia um enorme mercado de peixe á ceu aberto; isto se deu entre a seguda e terceira pedra (Ilha do meio e Mendanha); como eram chamadas essas ilhas, antigamente.
As pessoas limpavam os peixes, á margem do rio que divisava o nosso terreno. Inclusive o meu pai, minha mãe, meus irmãos e eu.
Foi um dia de muita fartura; todos tentavam processar o máximo de pescado possível; pois ainda não havia eletricidade em Itapoá.
Eu me recordo nítidamente, daquele dia bastante abafado e meio sufocante...
Embora nós estivéssemos; ora no mar ajudando a puxar as redes, ora no rio limpando os peixes; a sensação de calor sufocante, era bastante perceptível.
Entre três e quatro horas da tarde, algumas nuvens negras começaram a se formar á nordeste.
As pessoas, percebendo a tempestade que se anunciava; apressaram-se em voltar ás suas casas. A nossa prole, estava á passos da segurança do nosso humilde, mas aconchegante lar.
Aquela, não seria uma tempestade comum; mas nós tínhamos uma barreira de árvores, entre a nossa casa e a tempestade que se avolumava.
Com uma quantidade bem grande de pescado, já limpo; nos abrigamos ás preças na segurança do nosso lar.

Essas lembranças, ficaram gravadas na minha mente, com riqueza de detalhes; mesmo sendo eu ainda bem pequeno.
As primeiras rajadas de vento, começaram a uivar por entre as árvores; o meu pai e meus irmãos, reforçavam as portas e janelas que davam para a tempestade.
Chuva e ventos fortíssimos, mudavam a paisagem daquele lugar; árvores eram arancadas, algumas maiores, cairam expondo suas raizes. A chuva transformou-se em graniso e no meio da turbulência; o teto da nossa casa, vibrava como se fosse voar. Ao perceber a gravidade da tempestade, o meu pai, aos brados pelo desespero, pedia que minha mãe e os menores, se escondessem embaixo da mesa. E assim fizemos...
Eu meio em choque; com o nosso papagaio que ainda era filhote á mão, orava apavorado e em silêncio.
Uma rajada mais forte, levou parte do teto da nossa casa; pedaços e lascas, voavam por toda parte, todos estávamos molhados e tremendamente assustados. Após uns dez ou quinze minutos, a tempestade começou a se dissipar, o dia voltou a clarear e nós meio atônitos; saíamos para conferir os estragos deixados por aquela tempestade.
Toda a região havia sido atingida, a vizinhança aflita, questinava possíveis vítimas; pois a violência dos ventos foi realmente assustadora!
Anos depois, ainda víamos grandes árvores tombadas em meio a mata da redondeza.

Eu acredito; que para além da proteção divina, o que nos protegeu naquela ocasião, foi o cinturão de árvores bastante resistente, que havia na nossa propriedade.
Os estragos na região foram grandes, mas me parece que não houve nenhuma vítima fatal.
A nossa matilha estava aflita, mas estava a salvo; os danos materiais, também não era novidade na nossa história. Então, estava tudo mais o menos certo; afinal.
O susto havia sido grande; mas o nosso grupo continuava na estatística possitiva, daquela realidade tão adversa...

Hoje; vendo as tempestades no estado de Santa catarina, eu percebo que estes fenômenos não são novos por lá!


A vida parecia voltar ao normal; claro que não por muito tempo...

(Foto "Anoitecer em Itapoá Primeira pedra" by Net)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

As adversidades no Paraiso...

Eu me dava conta, da dificuldade que a nossa familia tinha para se manter.





Diante dos piores cenários, a minha mãe não perdia a fé, nem blasfemava a nossa sorte. Ela angariava dinheiro costurando em sua velha máquina, ajudava na pequena produção de pescado dos nossos tios; também fazia voluntáriamente, o papel de enfermeira local, secretariava a igreja protestante que frequentávamos e ainda cuidava da nossa prole...
Essa era a nossa Heroina de Aço!
Nós aprendiamos o exercício da solidariedade, a partir do exemplo no próprio lar.
O meu pai, começou a tecer, a reparar redes para os pescadores e pescava artezanalmente. Tinhamos uma horta e árvores frutíferas no quintal. Mesmo assim; a demanda familiar era maior que a nossa capacidade de supri-la.

Os meus queridos irmãos aprenderam o ofício da pesca, no intúito de suprir as nossas carências mais básicas. Afinal; o nosso irmão mais velho estudava em um colégio interno em outra cidade, e precisava ser auxiliado.
Por vezes; me peguei á beira mar, olhando para os ceus e implorando por uma intercessão divina.
Imagino que a minha fé inabalável, é fato desde o útero materno.
Embora tivéssemos educação cristã protestante, nunca fomos encabrestados para a fé cega; as coisas eram claras e perguntadas explícitamente. Essa maneira franca e objetiva de lidar com as questões mais preocupantes; me tornara mais capacitado para as futuras superações.

Quando me senti preparado para o batismo; eu comuniquei para a minha mãe, a minha decisão. Ela me indagou sobre a importãncia do evento; eu respondi objetivamente, que gostaria do batismo por imersão, como era tradição na igreja.
O ritual de passagem era bastante importante para mim; e fazê-lo de uma forma democrática, foi inesquecível!
O cenário deste batismo, ainda é bem vivo na minha mente...
Numa manhã insolarada de sábado; depois de semanas do curso batismal, fomos exatamente para a margem deste rio, que consta na fotografia a cima.(Rio Saí Mirim- Litoral norte de SC).

A cena me vem a mente como de um filme épico...
Todos nós vestíamos túnicas brancas; o pastor orava em meio as águas, com a mão direita voltada para os ceus e a esquerda, estendida na nossa direção. Nós entrávamos no rio, um a um, em oração silênciosa; os outros membros entoávam cânticos armoniosos, enquanto nós eramos batizados por imersão.
Eu sinto que a espiritualidade explícita; incutiu no meu ser, uma certeza quase visceral... menos hipócrita, sabe? Mais humana, mais igual, menos ransosa, menos acusatória e muito mais compreensiva...
Óbviamente a questão humanizada, nada tem haver com idiotice. Em determinadas ocasiões, devemos nos colocar como Jesus diante do templo!
Existem seres humanos, com a capacidade de subestimar os outros; de forma quase vampiresca...
Esses invariávelmente; também tem os seus próprios vampiros, são de carne e osso, e na maioria das vezes, os conhecemos por nome e sobrenome.
E é nesse momento; que a espiritualidade deve superar a carne, pois se olharmos os nossos algozes com superioridade; é provável que nos tornemos iguais a eles...

São aqueles que fazem o suposto bem, que clamam ao mundo as suas nobres obras; como se dissessem: Olhem o quanto eu sou bondoso!
São aqueles que acusam, que não perdoam; ou não se permitem serem perdoados...
São aqueles que se escondem nos templos, com medo do fim do mundo; mas o mundo não acaba e sim a carne fétida...
São aqueles que de tão pobres, só conseguem ter dinheiro; ou aqueles que querem ser vistos, mas não veem...
São aqueles que só aplaudem as suas próprias conquistas; que esquecem as questões alheias...
Mas também; são os mais infelizes do planeta e sofrem bastante com isso, por serem extremamente autocentrados.
É preciso ser paciente com estes; pois o perdão é a maior das nobrezas...
Porém; a ética deve caber em qualquer lugar...

Por favor; perdão pelo sincericídeo, mas há coisas que precisam ser ditas...

Voltemos ao que realmente importa agora...

(Foto by Lee Bento- Barra Rio Saí Mirim SC)

terça-feira, 14 de abril de 2009

Crescendo e aprendendo...


Após a chegada do meu pai; nós fomos morar numa pequena casa de madeira, em frente a segunda pedra e ao lado do rio que margeava a parte norte do terreno. Exatamente na direção do sol...

Se você prestar atenção nesta fotografia, vai perceber a direita e mais a frente; uma pequena ilha á beira mar.
Este passou a ser o nosso endereço no paraiso...

Quanto tempo havia se passado, não me era claro naqueles dias. Na verdade; eu só me dei conta de que este novo endereço era verdadeiramente nosso; bem mais tarde. Os meus pai e meus tios, haviam construido uma pequena casa e fomos morar lá.

A medida que o tempo passava, eu percebia que nós habitávamos um oásis e sempre valorizei cada metro quadrado daquele lugar. Sem levar em conta; eu também aprendia com a dinâmica do desenvolvimento cultural, social, econômico e político do local. Mesmo sem saber que a questão acadêmica, me contemplaria com essa vertente; mais tarde!

Os meus primeiros mestres, foram sem dúvida, os meus genitores...

Havia alguns generosos no ofício de ensinar, que nos ministravam aulas na vila.
O meu primeiro professor primário, foi o "Seu Zézinho"; depois tivemos como professora, a esposa do meu primo, a Lourdes. Tempos depois foi criada uma escola primária, pela prefeitura da cidade de Garuva; exatamente nos fundos do nosso terreno.

Será que eu poderia ser infeliz?
De frente nós tinhamos uma ilha á beira mar, do lado norte o rio e nos fundos a escola.
A natureza exuberante nos contemplava, como se pretendesse nos proteger de um futuro turbulento...
As caminhadas na areia branquinha da praia, era uma experiência indescritível, para uma criança ávida por conhecimento como eu. Penso que vem daí a minha vontade de ter estudado Oceanografia. Não estudei Medicina, nem Oceanografia, por serem cursos proibidos aos desabonados econômicamente.
Não se trata de lamentação, mas constatação; mesmo porque, eu estou satisfeito com a carreira que escolhi.
A gratidão era discurso largo, no nosso núcleo familiar e a disciplina paterna, principalmente; era bastante rígida.
A minha mãe era a doçura apimentada cristã; e o meu pai a disciplina militarizada.
Nestas circunstâncias, a vida fluia quase naturalmente para mim; garoto levado e saudável em todos os sentidos.
Hoje eu percebo que algum tipo de proteção, me livrara do ranso natural e adulto da família. Afinal; eu fora filho temporão e numca percebi em meus pais, os vilões que alguns pintavam. Todos temos o direito da manifestação clara e democrática; como faço eu agora, não é?
Penso que a ética, deveria ser o mandamento número zero, que as pessoas deveriam olhar para elas mesmas, antes de emitir opniões embasadas no achismo pouco fundamentado.
As adversidades no Paraíso...
(Foto Itapoá by net)

quarta-feira, 8 de abril de 2009

A vida no paraiso...




Quando nós aportamos aqui; a vila era distrito da cidade de Garuva SC.



Nesta pequena praia interna e repleta de vida marinha; foi que eu ainda um pequeno ser, me atrevi a dar as minhas primeiras braçadas. Hoje eu não sou o tipo melancólico saudoso; justamente por ter vivido cada periodo da minha vida, com verdade e valorização. Mesmo sem ter me dado conta disso, anteriormente!

Segundo a minha vaga lembrança; havia um cartório, entre as vilas de Itapema e Itapoá, onde trabalhava a minha prima. Existiam várias vilas, umas distantes das outras, que com a emancipação, passaram a constar como bairros. Lembro-me da ordem das vilas, no sentido norte sul. Primeiro vinha Barra do Saí, que fica na fóz do rio Saí Mirim, e faz divisa com o estado do Paraná; depois Itapema, que sem dúvida, para mim é a mais linda. Em seguida vem Itapoá, Pontal e Figueira.
Óbviamente, existia outros vilarejos menores; mas por uma questão de objetividade, não quero me alongar na descrição pormenorizada, da situação geopolítica do lugar.
Nos anos sessenta; residiam aqui, aproximadamente, duas dúzias de famílias. A pequena população, vivia basicamente da pesca, da agricultura de subsistência e suas manufaturas. Existiam emgenhos para fabricação de farinha e bejús, á partir da mandióca. Os escambos; era uma forma muito comum de comércio na região e os produtos industrializados; vinham de São Francisco do Sul, através das canoas que faziam esta travessia semanalmente.
Eu penso; que jamais reclamarei da minha estadia neste plano terreno, sinto que
sou de fato privilegiado; tanto pelo núcleo onde fui gerado, como pelos amigos anjos, que habitam este planeta comigo; ou ainda pelos lugares onde morei...

Sempre que as grandes dificuldades se apresentavam; invariavelmente, eu estava de frente para algum paraiso...Nos primeiros anos da minha existência; a realidade do mundo externo, me parecia meio distante; como uma vaga lembrança do meu subconsciente infantil.


Também; quem quer saber do passado, quando se vive no paraíso?


Numa certa manhã; eu fui apresentado a um homem esguio, que era para mim, totalmente desconhecido... Aquela figura, marcada pelo tempo e pelas dificuldades da vida; era o meu pai que retornara ao lar. Eu não me dei conta disto; em virtude da inexistência do referencial anterior de paternidade. Não por culpa dele nescessariamente; mas porque a vida estava se apresentando daquela forma, naquele momento...

Existem coisas que você muda; outras aprende a conviver, da maneira mais saudável possível.

O meu pai; foi um homem pouco compreendido por alguns, respeitado pela maioria e da mesma forma que eu; não perdoava os maldosos de plantão...


Algumas vezes; o exercício do perdão é necessário, para que as feridas deixadas pela mágoa; cicatrizem e não se tornem crônicas. Nós temos maior capacidade de acusação; do que a do perdão... Nos colocarmos no lugar do outro; na maioria das vezes, amplia as nossas possibilidade de compreesão do todo. O modelo mentiroso, irresponsável, difamador e acusatório; tende a contaminar os próprios disseminadores desta conduta mesquinha, que é dígna de pena!


Jesus disse: "Pai; perdoa-os, porque eles não sebem o que fazem". Devemos procurar identificar, a que Deus interior nós obedecemos; pois as duas modalidades, coexistem dentro de cada um de nós. Se alimentarmos a nossa féra interior; a próxima vítima, fatalmente será nós mesmos.


Quem não consegue ser bom filho, jamais será pró-ativo ou agragador socialmente; pois respeitar os pais, é mandamento bíblico e configura valor moral e caráter. Se não formos gratos, com quem nos trouxe á existência; vamos ser gratos com quem; mesmo?!


Crescendo e aprendendo...

(Foto "Primeira pedra -Itapoá" by Lee)

sábado, 4 de abril de 2009

Travessia turbulenta...


Depois daquela famigerada travessia; a pequena canoa aportava neste paraiso. me recordo de ter sentido mais frio do que verdadeiramente medo.
Em virtude da tenra idade; eu percebia de forma pouco clara, os momentos de perigo que nós havíamos passado; era um sentimento mais parecido com um sonho do que a noção exata da realidade.
A forma afetiva e acolhedora da minha heroina, sempre agragava uma paz inenarrável; ainda hoje eu sinto uma saudade acolhedora a me protejer, quando penso no espírito leve da minha mãe...
Quando aportamos aqui, não havia estradas e todo acesso era feito pela praia ou pelo mar.
Naquela época, este paraiso era uma fantástica vila de pescadores; e preservada quase na sua totalidade.
A providencia existencial, havia escolhido um verdadeiro paraiso para nos hospedar. A nossa prole desembarcou nesta praia, como se estivessemos sendo preservados de alguma forma. Já que a ditadura militar, tornava-se cada dia mais violenta nas grandes cidades.
A proteção espiritual dava provas reais, de preservação da nossa numerosa, e agora separada familia...
Eu não conhecia as minhas irmãs mais velhas, nem mesmo o meu heroi de carne e osso. Como eles haviam ficado na ciadade de Santos; também tinham ficado de fora, da minha noção de abrangencia familiar. O meu núcleo familiar até então, era a minha mãe, meus quatro irmãos, meus tios que já moravam na vila, meu primo, minha prima e eu.
A minha noção existencial mais remota; resume-se a fleshes de acontecimentos, e não uma noção real de tempo. Estranho isso... será que é assim com todo mundo? A gente só solidica essa noção de tempo e espaço, após uma certa idade mesmo; né?
Quem ainda não conhece Itapoá; eu peço que volte na foto á cima, e identifique os tres pontos principais, que são características marcantes do lugar. O primeiro a direita é uma das tres pedras, que avançam mar á dentro, e tem piscinas naturais com uma profusão de vida marinha de toda ordem.
Na realidade, são quatro ilhas; tres delas estão á beira mar e distantes umas das outras, na ordem de quinhentos metros; a quarta fica aproximadamente, a um kilômetro da costa e para mim, é a mais bela.

Habitando o paraíso...

(Foto Itapoá atualmente-by net)

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Meus avós maternos...


Os pais da minha mãe, foram casados por mais de sessenta anos e faleceram quando eu ainda era bebe.
Os conheço apenas por esta fotografia, tirada a partir de um quadro muito antigo e pelos relatos familiares. Eles faleceram com menos de um ano de diferença um do outro.

Ela chamava-se, Ester Noêmia de Souza, o meu avo chamava-se; Antonio Luiz de Souza, e eram primos.

Forte para uma família protestante daqula época; não?

Eu penso que todas as famílias tem histórias incomparáveis. Porém; a nossa familia, tem correlação claramente perceptível, com alguns fatos históricos e bastaste importantes. A história dos meus avós maternos, não era tão diferente da história de Tomé de Souza; que era filho bastardo, e deu no que deu. Sinal que a fórmula vem dando bons resultados...

Segundo a lenda familiar, os meus avós maternos, não aprovavam a relação dos meus pais.

Quando jovem, o meu pai não tinha boa fama, era do sul do estado de Santa Catarina e teria deixado a casa dos pais, ainda adolescente. Segundo ele mesmo; nunca mais voltou lá.

As dificuldades econômicas da nossa família eram imensas; e para falar a verdade, nós éramos os primos pobres. Mas os nossos pais, foram dotados com a maior das riquezas. O que me faltou economicamente; sobrou na formação cotidiana. O nosso núcleo sacrificava-se, em prol dos estudos daqueles que se pré dispunham a estudar. Eu quando criança, ouvi muitas vezes os nossos parentes dizerem, que os meus pais, mal tinham dinheiro para comer; como queriam formar doutores? Eles não percebiam que a formação, é o maior tesouro a ser deixado para um filho. Poder formar a um indivíduo, é tão nobre quanto ganhar um premio Nobel .Alguns dos meus irmãos reclamam, pelo sacrifício que fizeram em prol uns dos outros; mas todos tiveram a oportunidade da escolha. Tudo o que eu considero importante; também procuro agregar maior valor. As outras pessoas podem facilitar, ou complicar a vida da gente; depende de como eu desperto isso nos outros. Nós devemos sinalizar, as nossas reais intenções, necessidades e procurar identificar, se o outro está disposto, ou capacitado para nos ajudar. Essa forma de atuação, poupa conflitos futuros. Afinal; um bombeiro mal prepado é sinônimo de homicídio duplo.

Todas as coisas que deram certo realmente na minha vida; partiu de uma ação objetivada por mim mesmo. O meu pai costumava dizer: "Quem quer faz; quem não quer manda fazer."

Não sou dado a reclamações; penso ser perda de tempo. Enquanto reclamos; também gastamos energia desnecessária; porque o reclamisto, tende a se tornar crônico, e sem o menor efeito prático.
"Quem reclama muito; faz pouco...".
"Todo excesso, tende á nocividade...".
"Até Deus demais é nocivo..." e etc...
Efim; exemplos não faltam.
Se nos desarmarmos, se percebermos as coisas, de maneira menos preconceituosa, ou menos empoderada, da nossa própria verdade; também perceberemos, que a vida é mais fácil e mais prazeirosa, do que nós imaginávamos.
Viver é uma arte; e viver na sociedade humana, é a arte mais dificil...

Existe tipos humanos, que atribuem aos outros, os seus próprios males, as suas dores e culpas. Estes são sempre as vítimas de plantão; tipo "Olha o que fulano fez comigo!". Na realidade o fulano não fez nada; somos nós mesmos, quem permitimos que o outro atue dessa forma conosco. Somos todos antenas captando sinais; e se não estivermos bem posicionados; acabamos captando só chuvisco. Quem normalmente, fala mal de alguém para você; também vai falar mal de você para alguém; porque essa é a dinâmica dos mal intencionados de plantão. A fofóca é vista nas instituições; como o ranso crônico da gestão. Ela não escolhe nível social e invariavelmente, todos tem culpa. Tanto quem fala quanto quem se permite escutar. Portanto; não dar audiência e não repassar fofóca, é conduta extremamente salutar, por configurar etiqueta sóciocultural, e postura ética adequada.

Bom; agora eu devo realmente entrar na nossa odisseia familiar...

A minha participação efetiva na história, começa naquela travessia turbulenta para Itapoá SC.






(Foto Meus avós acervo familiar by Lee Bento)